A fé, para Dom João Câncio Peixoto Filho, nunca foi apenas um discurso, mas uma experiência construída ao longo do tempo, atravessada por encontros, dúvidas e decisões que redefiniram sua própria trajetória. É nesse caminho, feito de escuta e entrega, que se desenha a história de uma liderança marcada pelo compromisso com o outro e pela construção de uma igreja presente na vida das pessoas.
Foi ainda nos anos 1980, em meio à juventude e às descobertas da vida, que esse caminho começou a tomar forma dentro da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. Hoje, como bispo da Diocese Anglicana do Recife, Dom João conduz a instituição em um dos momentos mais simbólicos de sua história: a celebração dos 50 anos de atuação.
Sua caminhada teve início em 1983, durante um encontro de jovens promovido pela Catedral da Santíssima Trindade, no Recife. Entre idas e vindas, formações e experiências comunitárias, foi no chamado Conselho da Cristandade que, segundo ele, aconteceu sua verdadeira conversão. “Ali resolvi entregar a minha vida a Jesus e tê-lo como meu Senhor e Salvador”, relembra.

Dom João Câncio Peixoto Filho celebrando um culto de 50 anos. (Imagem: Divulgação/ Diocese Anglicana do Recife)
Chamado, vocação e os primeiros passos
A decisão pelo ministério não veio de forma isolada. Ao longo do tempo, sinais e provocações reforçaram o caminho. Um jovem desconhecido disse que “Deus queria mais”, o incentivo de pessoas próximas e o reconhecimento de lideranças religiosas foram fundamentais para que buscasse formação teológica e assumisse o compromisso com a igreja.
Essa trajetória passou pelo Seminário Anglicano de Estudos Teológicos (SAET), missões em outros estados e pela fundação de comunidades religiosas, até chegar à ordenação como diácono, em 2003, e posteriormente como presbítero. Em 2013, foi eleito bispo com ampla maioria durante o Sínodo Geral, assumindo uma Diocese em um dos momentos mais delicados de sua história.
Da crise à reconstrução da Diocese
“Recebemos uma Diocese fragilizada, sem patrimônio, com poucos clérigos e em crise financeira. Foi um período muito difícil”, afirma. A partir daí, iniciou-se um processo de reconstrução institucional que envolveu batalhas judiciais, reorganização administrativa e investimento na formação de novas lideranças.

Dom João Câncio Peixoto Filho celebrando um culto. (Imagem: Divulgação/ Diocese Anglicana do Recife)
Mais de uma década depois, o cenário é outro. A Diocese conta hoje com comunidades espalhadas pelo Nordeste, além de um corpo ativo de clérigos, ministros e lideranças leigas. “Focamos na formação teológica e na expansão missionária. Hoje somos uma Diocese que faz a diferença na região”, destaca.
Fé que se traduz em ação social
Mas é na atuação social que a identidade da Diocese Anglicana do Recife ganha contornos mais visíveis. Projetos voltados à população em situação de vulnerabilidade, ações realizadas durante a pandemia e iniciativas como o Fazer o Bem Faz Bem, em Olinda, o Mãos Solidárias, em Petrolina, no Sertão pernambucano, e o Gente é Para Brilhar, que alcançou projeção internacional, além da atuação da Pastoral de Rua, traduzem, na prática, a missão da igreja.
“A ação social é parte essencial do Evangelho. É preciso dar de comer a quem tem fome, cuidar de quem sofre. Esse é o papel de todos nós enquanto cristãos”, afirma o bispo.
Inclusão, diálogo e os caminhos do futuro
Essa atuação também se conecta a outro pilar que marca a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil: a inclusão. Para Dom João, a igreja deve ser, antes de tudo, um espaço de acolhimento. “A nossa igreja nunca se colocou como a única e verdadeira, mas como parte do corpo de Cristo. E está sempre de portas abertas para todos e todas, independentemente de gênero, raça ou orientação sexual”, pontua.
Em um cenário de polarização crescente, ele defende o diálogo como caminho essencial. “Dialogar é sempre o melhor caminho. Precisamos agir com sabedoria e discernimento, seguindo o Evangelho”, afirma.
Ao celebrar os 50 anos da Diocese Anglicana do Recife, o sentimento que predomina é de gratidão. “Foram anos de muitas lutas, mas podemos afirmar com o coração que até aqui nos ajudou o Senhor”, diz.
O olhar, no entanto, está voltado para o futuro. Entre as metas estão a expansão da presença da igreja em todos os estados do Nordeste, o fortalecimento das ações sociais e a busca por sustentabilidade financeira que permita ampliar a atuação pastoral.
Entre desafios e conquistas, a trajetória de Dom João Peixoto se confunde com a própria reconstrução da Diocese. Uma história marcada pela fé, mas também pela ação concreta, onde espiritualidade e compromisso social caminham lado a lado.



