Raízes, Caminhos e Esperança: celebrando nossa história,
reinventando o futuro
Como vocês receberam a Cristo Jesus, continuem a viver nele,
enraizados e edificados, firmados na fé, transbordando em gratidão
(Colossenses 2.6-7).
Recife, 1 de maio de 2026.
Festa de Felipe e Tiago Menor, Apóstolos.
Dia das Trabalhadoras e dos Trabalhadores.
Tempo Pascal.
Às comunidades da Diocese Anglicana do Recife, da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil
e da Comunhão Anglicana,
às igrejas e comunidades religiosas irmãs,
às autoridades públicas e movimentos da sociedade civil,
ao povo nordestino e brasileiro,
Paz seja com vocês,
Reunidas e reunidos em Concílio, como clero e pessoas leigas representantes de nossas comunidades, celebramos, neste tempo, os 50 anos de criação da Diocese Anglicana do Recife. Fazemo-lo em uma data carregada de sentidos: a memória litúrgica de São Filipe e São Tiago, apóstolos, testemunhas do Cristo ressuscitado e enviados a anunciar o Evangelho em meio às complexidades de seu tempo, e o Dia Internacional das Trabalhadoras e dos Trabalhadores, que nos recorda a dignidade do trabalho humano, as lutas históricas por justiça e os desafios ainda presentes na vida de milhões de pessoas. Em sintonia com a tradição francisclariana presente em nossa Diocese, recordamos que o trabalho pode se tornar expressão de cuidado, serviço e missão, quando vivido como participação humilde e amorosa na obra reconciliadora de Deus no mundo.
Este 37º Concílio Diocesano acontece em um momento profundamente simbólico de nossa história. Ele não apenas recorda o caminho percorrido, mas nos convoca a escutar, com atenção e responsabilidade, os sinais de nosso tempo, um tempo atravessado por crises profundas, mas também por possibilidades reais de transformação. Celebramos, assim, não apenas uma marca cronológica, mas um tempo oportuno (um kairós) de memória viva, de discernimento coletivo e de renovação de nosso compromisso com a missão de Deus no mundo.
É nesse horizonte que oferecemos esta Carta Pastoral. Não como um documento meramente institucional, nem como uma palavra de celebração vazia, mas como um exercício comunitário de leitura da realidade à luz do Evangelho. Uma palavra que nasce da memória de nossas raízes, se compromete com os caminhos que estamos construindo e se abre à esperança que nos move.
Inspiradas e inspirados pelo tema “Raízes, Caminhos e Esperança: celebrando nossa história, reinventando o futuro”, e pela exortação apostólica de permanecermos “enraizados e edificados em Cristo, firmados na fé, transbordando em gratidão”, buscamos, neste texto, partilhar uma palavra de fé, de responsabilidade e de compromisso, dirigida à Igreja e à sociedade, em um tempo que exige de nós coragem, lucidez e fidelidade ao chamado de Deus para a vida.
Ao acolhermos essa exortação, somos levadas e levados também à pergunta que atravessa este Concílio: como recebemos a Cristo Jesus? No Tempo Pascal, a narrativa de Emaús nos oferece uma imagem preciosa para essa resposta. Recebemos Cristo no caminho, quando a esperança se encontra ferida; recebemo-lo como presença que se aproxima, pergunta, escuta, interpreta a memória da fé, parte o pão e devolve a comunidade à missão. Por isso, permanecer enraizadas e enraizados em Cristo não significa imobilidade, repetição ou fechamento, mas fidelidade viva, capaz de caminhar, discernir e testemunhar.
1. Raízes: memória e gratidão como fontes de inspiração, aprendizado e força
Falar de raízes, para nós, é falar de memória viva, não como retorno idealizado ao passado, mas como reconhecimento de uma história concreta na qual Deus segue agindo, sustentando, deslocando e chamando à fidelidade. Nossas raízes não são estáticas. Elas se aprofundam no chão da história, atravessam conflitos, resistem às secas e continuam a nutrir vida, mesmo quando as circunstâncias parecem adversas. É por isso que recordar, neste momento, não é apenas um gesto de gratidão, mas um exercício espiritual e teológico-político. Implica olhar para trás para compreender quem somos, discernir o que aprendemos e renovar a coragem para seguir.
A presença anglicana em nosso território antecede em muito a criação da Diocese. Ainda no século XIX, surgem as primeiras capelanias britânicas nas cidades portuárias de Recife, Salvador e Belém, as quais formaram historicamente nossa Diocese. Tratava-se, naquele momento, de uma presença limitada, voltada sobretudo a estrangeiros e imigrantes anglófonos, sem a perspectiva de uma inserção mais ampla na vida social, cultural e religiosa do país. Durante décadas, essa forma de presença marcou os contornos da atuação anglicana no Nordeste e Norte, refletindo também os limites de uma Igreja ainda fortemente vinculada a projetos externos e pouco enraizada nas realidades locais.
Esse cenário começa a se transformar a partir das décadas de 1960 e 1970, quando a Igreja Episcopal do Brasil conquista sua autonomia e, com ela, passa a articular uma nova concepção e um novo horizonte de missão. Já não se tratava apenas de oferecer um caminho religioso e pastoral às pessoas, mas de discernir o chamado de Deus em um país que vivia uma ditadura militar. Profundamente marcado por desigualdades regionais, pela exploração socioeconômica brutal, no campo e nas periferias urbanas, e por um regime político autoritário, violento e excludente. Ao mesmo tempo, o campo religioso cristão brasileiro configurava-se em uma clivagem entre a tradição católica e a pregação protestante-evangélica. Um campo pouco aberto ao diálogo público e frequentemente conivente com as injustiças sociais e políticas que atravessavam a vida do povo.
É nesse contexto que nasce, em 1976, a Diocese Anglicana do Recife. Sua criação não pode ser compreendida apenas como um movimento administrativo, mas como sinal de uma inflexão mais profunda na compreensão da missão da IEAB, que passa a buscar assumir, cada vez mais, sua dimensão pública, encarnada e profética. Desde o início, a Diocese foi chamada a existir não à margem, mas no interior das tensões da sociedade, buscando construir um testemunho cristão que fosse, ao mesmo tempo, fiel ao Evangelho e relevante para a vida concreta das pessoas.
Essa vocação se expressou, ao longo do tempo, no compromisso com a democracia, com a justiça social e com a defesa dos direitos humanos, bem como na abertura ao
diálogo ecumênico e inter-religioso e na afirmação da liberdade de pensamento e do pluralismo. Em um contexto muitas vezes marcado por exclusões e silenciamentos, a Diocese se tornou, para muitas pessoas, um espaço de refúgio e acolhimento, especialmente para aquelas que se viam hostilizadas, marginalizadas ou deslocadas por não se conformarem aos discursos cristãos dominantes.
Esse caminho, no entanto, não se deu sem conflitos. Ao contrário, ele foi atravessado por tensões profundas, que se intensificaram especialmente a partir dos anos 2000, quando a Igreja foi chamada a se posicionar diante das questões de gênero, sexualidade e inclusão plena. A defesa da ordenação de mulheres, o reconhecimento da dignidade e da vocação de pessoas LGBTQIA+ e sua plena participação na vida e nos ministérios da Igreja provocaram rupturas dolorosas, perdas institucionais e momentos de grande fragilidade.
Essas experiências não podem ser romantizadas. Elas deixaram marcas. Mas também revelaram algo fundamental sobre quem somos e sobre o tipo de fidelidade ao Evangelho que buscamos sustentar. Uma fidelidade que não se mede pela manutenção de consensos aparentes, mas pela disposição de discernir, mesmo em meio a conflitos, onde a vida está sendo afirmada, e de nos colocarmos ao lado dela.
À luz da Páscoa, essas marcas podem ser reconhecidas como cicatrizes pascais. O Ressuscitado não apaga as marcas do Crucificado; ele as transfigura em presença, memória e missão. Assim também nós não somos chamadas e chamados a esconder nossas feridas, nem a transformá-las em ressentimento. Somos chamadas e chamados a lê-las com verdade, para que se tornem aprendizagem, responsabilidade e cuidado com a comunhão.
Ao reconhecer isso, somos também chamadas e chamados a olhar com honestidade para nossas próprias limitações. Nossa história não é feita apenas de acertos. Carregamos contradições, equívocos, silêncios e omissões. Nem sempre estivemos à altura dos princípios que professamos. Nem sempre conseguimos traduzir, em nossas práticas, o alcance de nossa própria teologia. Mas é justamente nesse reconhecimento que se abre a possibilidade de amadurecimento. A memória, quando atravessada pela verdade, não nos paralisa, ela nos transforma.
Nesse processo, o Seminário Anglicano de Estudos Teológicos (SAET) e a Catedral Anglicana do Bom Samaritano (CABS) assumem um lugar singular em nossa trajetória. O SAET, especialmente nos momentos mais difíceis, quando a Diocese se viu fragilizada e com poucos espaços de encontro e partilha, tornou-se mais do que um centro de formação: foi lugar de resistência, de encontro e de reorganização da vida comunitária. Ali, a fé foi sustentada, lideranças foram formadas e a esperança encontrou formas concretas de se manter viva. A reabertura da Catedral, em 2016, por sua vez, não representa um simples retorno, mas a expressão visível de um processo de reconstrução. A comunidade que a constituiu carrega a memória desses anos de travessia e, por isso mesmo, a Catedral se tornou um símbolo de renascimento, um espaço que não apenas guarda a história, mas a projeta para o futuro.
Assim, ao falar de nossas raízes, falamos de uma história marcada por deslocamentos, conflitos e recomeços, mobilizada, todavia, por uma insistência teimosa na vida. Uma história que não se explica apenas por nossas decisões, mas pela ação de Deus que, mesmo em meio às nossas fragilidades, continua a nos chamar, sustentar e enviar. É dessa memória – atravessada por gratidão, mas também por verdade – que brotam a inspiração, o aprendizado, a coragem e a força de que precisamos para seguir. Porque nossas raízes não nos prendem nem nos limitam a um lugar fixo; elas nos sustentam para o que ainda está por vir.
2. Caminhos: discernir nosso tempo e nosso lugar para construir uma nova realidade a partir da fé em Cristo
Se nossas raízes nos oferecem memória e sustentação, os caminhos nos colocam diante de uma tarefa permanente: discernir o tempo em que vivemos, reconhecer o lugar que ocupamos nele e assumir, com responsabilidade, a construção de novas possibilidades de vida a partir da fé em Cristo. Caminhar, nesse sentido, não é apenas avançar, mas aprender a ler a realidade – com lucidez, humildade e coragem – e responder a ela de forma fiel e criativa.
A Diocese Anglicana do Recife se encontra hoje atravessada por desafios que não são apenas internos, mas que refletem tensões mais amplas do anglicanismo, do campo religioso brasileiro e das dinâmicas sociais, políticas e culturais do Nordeste, do Brasil e do mundo. Não estamos fora dessas crises. Estamos dentro delas. E é a partir desse lugar situado, concreto, atravessado por limites e possibilidades que somos chamadas e chamados a discernir nossos caminhos.
Um dos desafios mais imediatos tem sido o da reconstrução institucional e pastoral da Diocese após as rupturas do início dos anos 2000. Esse processo não se resume à reorganização de estruturas ou à recomposição de lideranças e comunidades. Trata-se de um trabalho mais profundo. Reconstruir vínculos, reconstituir a confiança, reaprender a ser Igreja em um contexto marcado por perdas, deslocamentos e recomeços. Esse caminho tem exigido paciência, perseverança e uma disposição constante para o diálogo e a corresponsabilidade.
Ao mesmo tempo, esse processo nos convoca a repensar e renovar a própria experiência anglicana que buscamos viver. Não se trata de repetir modelos herdados, nem de simplesmente adaptá-los, mas de discernir como o Evangelho pode ser vivido e anunciado de forma significativa em nosso contexto. Isso implica reconhecer, com seriedade, que a presença e a ação amorosa de Deus não se limitam às formas tradicionais da Igreja, mas se manifestam na história, na cultura, nos saberes e nas experiências de vida de pessoas e comunidades frequentemente marginalizadas, subalternizadas e excluídas.
No contexto nordestino, isso exige de nós uma atenção particular à riqueza e à complexidade das expressões culturais, artísticas, musicais e espirituais que atravessam a vida do povo. Nas tradições indígenas, quilombolas, camponesas e nas múltiplas formas de vida que emergem das periferias urbanas, encontramos modos de existir, de resistir e de celebrar que carregam densidades de sentido que não podem ser ignoradas pela reflexão teológica nem pela prática eclesial. São experiências marcadas por uma profunda relação com o território, com a memória, com o corpo e com os afetos, dimensões muitas vezes marginalizadas pelas formas mais racionalizadas e normativas de viver a fé.
Aprender a reconhecer o sopro do Espírito Santo nesses contextos significa deslocar nosso olhar. Significa admitir que Deus continua a se revelar em linguagens, gestos, ritmos, narrativas e práticas que não cabem plenamente nos esquemas tradicionais da Igreja. Significa perceber que há sabedoria na oralidade, na música, na dança, na celebração comunitária, na resistência cotidiana, na espiritualidade que se constrói no enfrentamento da dor e na insistência na vida. Não se trata de substituir uma tradição por outra, nem de dissolver a identidade anglicana, mas de permitir que ela seja atravessada, questionada e enriquecida por essas experiências.
Esse reconhecimento nos desafia, ao mesmo tempo, a evitar tanto a idealização quanto a superficialidade. Não podemos romantizar essas realidades, nem tratá-las como folclore
ou como recurso estético a ser incorporado de forma acrítica. Essas culturas e espiritualidades também são atravessadas por conflitos, tensões e ambiguidades. Escutá-las de forma responsável implica reconhecer sua complexidade, suas dores e suas contradições, sem reduzi-las a símbolos vazios ou a expressões exóticas.
Somos chamadas e chamados, portanto, a um exercício mais profundo de escuta e aprendizagem. Uma escuta que não busca apenas “incluir” o outro, mas que se deixa transformar pelo encontro. Isso tem implicações concretas para a forma como pensamos e vivemos a fé. Interpela nossa teologia, desafiando-a a dialogar com outros saberes e a reconhecer outras epistemologias. Questiona nossa eclesiologia, convidando-nos a imaginar formas mais abertas, menos centralizadas e mais enraizadas na vida concreta das comunidades. Provoca nossa liturgia, chamando-a a acolher a diversidade de linguagens, corpos e expressões que compõem o povo de Deus. Redimensiona nossa missiologia, deslocando-a de uma lógica de transmissão para uma lógica de encontro e partilha. E reconfigura nossa prática pastoral, convocando-nos a atuar com mais sensibilidade, humildade e compromisso com as realidades locais.
Outro desafio decisivo diz respeito à sustentabilidade da vida diocesana. Construir uma Igreja comprometida com a missão exige também responsabilidade na gestão de seus recursos. A sustentabilidade financeira não é um tema secundário, mas parte integrante de nossa fidelidade. Isso implica desenvolver formas éticas, transparentes e responsáveis de administração, ao mesmo tempo em que se fortalece a autonomia e a corresponsabilidade de cada comunidade local. Não se trata apenas de manter estruturas, mas de garantir condições para que a missão continue sendo vivida de forma consistente.
Nesse caminho, a formação de lideranças se torna uma prioridade incontornável. Precisamos de pessoas espiritualmente maduras, teologicamente comprometidas e pastoralmente sensíveis, capazes de dialogar com a complexidade do nosso tempo, de aprender continuamente, de enfrentar conflitos e de nutrir comunidades vivas. Lideranças que não busquem apenas a projeção ou o protagonismo individual, mas que saibam construir coletivamente, enraizadas na tradição da Igreja e atentas às realidades locais de cada paróquia e missão.
Essa formação exige que distingamos, com clareza, autoridade e autoritarismo. A autoridade cristã não se confunde com mando, domínio ou imposição sobre consciências. Em sua melhor compreensão, autoridade é capacidade de fazer crescer a vida: sustentar quem está caindo, promover dignidade, abrir caminhos de discernimento e servir à maturidade da comunidade. O autoritarismo é sua perversão: sufoca a diferença, concentra a palavra, fragiliza vínculos e transforma cuidado em controle. Precisamos formar lideranças com autoridade evangélica, não com desejo de poder.
Esse desafio se torna ainda mais urgente em um contexto marcado por profundas transformações nas formas de sociabilidade. Vivemos em um tempo em que poderosas tecnologias de informação e comunicação reorganizam as relações humanas, frequentemente produzindo isolamento, fragmentação, desconfiança e competição. Nesse cenário, viver a vocação comunitária do discipulado cristão se torna, por si só, um gesto contra cultural. Ser Igreja hoje é, também, aprender a reconstruir laços, cultivar confiança e sustentar experiências reais de comunhão.
Ao mesmo tempo, somos confrontadas e confrontados por um cenário político e social cada vez mais marcado por discursos e práticas autoritárias. Em diferentes níveis, assistimos ao crescimento de lógicas que operam por meio da estigmatização, da subalternização e da produção de medo e ódio, especialmente contra grupos historicamente vulnerabilizados, como mulheres e meninas, pessoas negras, pessoas LGBTQIA+, populações periféricas e em situação de rua, povos indígenas, entre outros. Essas dinâmicas têm transformado a realidade sociocultural contemporânea e encontram significativa ressonância em setores do campo religioso cristão, que passam a justificar, legitimar e, em alguns casos, a promover tais processos.
Reconhecemos, por isso, que o enfrentamento às ameaças autoritárias também passa por um discernimento espiritual sobre as imagens religiosas que cultivamos. Toda imagem de Deus usada para legitimar submissão absoluta, medo, exclusão, hierarquia violenta ou sacrifício de corpos vulnerabilizados trai o Evangelho de Cristo. O Deus que reconhecemos em Jesus não se deixa reduzir ao espelho sagrado dos soberanos deste mundo; revela-se no cuidado, na justiça, na misericórdia, na partilha e na vida que resiste à morte.
Diante disso, nossa vocação profética se torna inadiável. Não podemos nos calar diante da violência, nem nos acomodar diante da injustiça. Somos chamadas e chamados a nomear essas realidades, a denunciá-las e a nos posicionar ao lado daqueles e daquelas que sofrem suas consequências. Isso inclui também enfrentar as formas de violência de Estado que se intensificam nesse contexto, bem como as novas configurações de imperialismo e colonialismo que desestabilizam relações internacionais e alimentam conflitos e guerras em diferentes partes do mundo, inclusive na América Latina.
Não estamos distantes dessas realidades. Elas nos atravessam. Por isso, não podemos ignorar o sofrimento de povos inteiros que hoje vivem sob ameaça constante. As guerras em curso, a devastação de territórios, as políticas de extermínio, genocídio, limpeza étnica e deslocamento forçado – como vemos de forma dramática na região de Gaza e na Palestina – nos interpelam profundamente como Igreja. Não como observadoras externas, mas como parte de uma comunidade de fé global que é chamada a testemunhar, em todas as circunstâncias, o valor inegociável da vida.
Nesse mesmo horizonte, a crise ambiental e as mudanças climáticas se impõem como um dos maiores desafios de nossa geração. A destruição da criação, o agravamento das desigualdades ambientais e o impacto desproporcional sobre populações vulneráveis – muitas vezes marcado por dinâmicas de racismo ambiental – exigem de nós uma resposta teológica e pastoral consistente. Isso passa, necessariamente, por redescobrir e rearticular a dimensão sacramental da vida, reconhecendo que toda a criação participa do mistério de Deus e, portanto, não pode ser tratada como recurso descartável.
Diante de tantos desafios, poderia parecer que o caminho se torna incerto ou mesmo intransponível. Mas é justamente aqui que a fé em Cristo nos sustenta. Não como garantia de respostas fáceis, mas como horizonte que nos permite seguir caminhando, discernindo e construindo, mesmo em meio às tensões. Nossos caminhos não estão dados. Eles se fazem no processo. É nesse processo que somos continuamente chamadas e chamados a viver a fé não somente como refúgio, mas como força transformadora.
Discernir nosso tempo, reconhecer nosso lugar e assumir a responsabilidade de construir novas realidades, eis o desafio que se coloca diante de nós. Não sozinhas e sozinhos, não a partir de certezas absolutas, mas em comunhão, com humildade e com a coragem de quem sabe que o Evangelho continua sendo, ainda hoje, boa notícia para o mundo.
3. Esperança: nosso compromisso radical com o chamado à missão de Deus e com o testemunho anglicano no Brasil e Nordeste
Se as raízes nos sustentam e os caminhos nos desafiam, a esperança é aquilo que nos move. Não como expectativa vaga ou consolo diante das dificuldades, mas como compromisso radical com a ação de Deus na história. A esperança cristã não é fuga da realidade, é decisão de permanecer nela, mesmo quando marcada por impasses, contradições e sofrimentos, confiando que o amor de Deus continua a operar, persistentemente, abrindo possibilidades onde parecem não existir.
Celebrar os 50 anos da Diocese Anglicana do Recife, neste horizonte, é mais do que agradecer pelo que passou. É renovar, com consciência e responsabilidade, nosso compromisso com a Missão de Deus, uma missão de reconciliação permanente, que não ignora os conflitos, os atravessa; que não apaga as diferenças, mas as transforma em possibilidade de comunhão; que não se contenta com a manutenção do que existe, mas aponta para um horizonte de vida marcado por amor, justiça, igualdade, liberdade e criatividade.
É nesse sentido que reafirmamos nosso compromisso com o testemunho anglicano no Brasil e, de modo particular, no Nordeste. Um testemunho que se inspira nas Cinco Marcas da Missão e que nos convoca a ser uma Igreja que proclama o Evangelho, forma discípulas e discípulos, responde às necessidades humanas com serviço amoroso, confronta as estruturas injustas da sociedade e cuida da integridade da criação. Como Diocese nordestina, vivemos esse testemunho em comunhão com toda a família anglicana. Participamos da Comunhão Anglicana não como quem apenas recebe orientações externas, mas como quem entra em uma conversa viva: recebendo, traduzindo, interrogando e oferecendo de volta a inteligência pascal nascida de nosso chão. O Nordeste brasileiro, com suas dores, culturas, espiritualidades, resistências e esperanças, também interpreta o Evangelho e contribui para o discernimento do Corpo de Cristo no mundo.
Queremos continuar sendo uma Igreja inclusiva, que acolhe sem reservas e que reconhece a dignidade de todas as pessoas. Uma Igreja atenta às feridas do mundo, capaz de oferecer cuidado, escuta e caminhos de cura e crescimento. Uma Igreja aberta ao diálogo – ecumênico, inter-religioso e cultural – que não teme a diferença, mas a reconhece como espaço de encontro e aprendizado.
Ao mesmo tempo, reafirmamos nossa vocação profética. Não como postura de superioridade moral, mas como fidelidade ao Evangelho que nos chama a denunciar tudo aquilo que nega a vida. Seguimos comprometidas com a luta por justiça social, com a defesa dos direitos humanos e com a construção de uma sociedade mais democrática, justa e igualitária, especialmente ao lado das pessoas e comunidades que continuam sendo marginalizadas e excluídas.
Essa esperança se concretiza também no cuidado com a continuidade da fé que recebemos. Somos herdeiras e herdeiros de uma história que não nos pertence apenas, mas que nos foi confiada. Por isso, renovamos nosso compromisso em partilhar com as novas gerações não apenas conteúdos, mas uma experiência viva de fé marcada por memória, aprendizado e abertura ao novo. Uma fé que não se fecha no passado, mas que se reinventa na escuta do Espírito.
Nesse mesmo movimento, reconhecemos a importância de fortalecer nossa vida institucional. Não como fim em si mesma, mas como suporte para a missão. Uma Diocese com estruturas organizadas, com práticas democráticas e participativas e com sustentabilidade financeira responsável é capaz de cuidar melhor de seu povo e de responder com mais consistência aos desafios do tempo presente. Por isso, reafirmamos nosso compromisso em construir uma Diocese que seja, cada vez mais, espaço de abrigo, crescimento e fortalecimento das pessoas, um lugar onde se possa ouvir, discernir e responder ao chamado do Espírito Santo.
A esperança que professamos, portanto, não ignora a complexidade do mundo. Também não se deixa paralisar por ela. É uma esperança que insiste, resiste e se compromete. Uma esperança que se traduz em prática, em comunidade e em missão. É a partir dela que seguimos.
4. Envio: reinventando o futuro
Toda memória que nos constitui também nos envia. Não nos permite permanecer no mesmo lugar. Ao contrário, nos desloca, nos convoca e nos lança novamente à missão. Reinventar o futuro, para nós, não é abandonar o que fomos, mas reconhecer que nossa história continua aberta e que somos chamadas e chamados a participar ativamente de sua construção.
A Diocese Anglicana do Recife aprendeu, ao longo de sua trajetória, que não nasce de si mesma. Nasce da Missão de Deus. E é dessa mesma missão que continua a renascer, vez após vez, especialmente nos momentos em que tudo parece incerto. Não somos sustentadas por nossas próprias forças, mas pela graça que nos chama, nos reúne e nos envia.
Ao final deste Concílio, somos novamente enviadas. Não como quem já tem todas as respostas, mas como quem carrega consigo uma história marcada pela fidelidade de Deus, os aprendizados de um caminho que continua em construção e a esperança de um futuro que ainda está sendo tecido.
Como em Emaús, o reconhecimento de Cristo no partir do pão não nos retém em uma experiência privada. Ele nos devolve ao caminho, à comunidade e à cidade. O Concílio que celebra nossas raízes também nos envia aos territórios onde a esperança foi ferida, para escutar, cuidar, denunciar injustiças, repartir o pão e testemunhar que nenhum poder autoritário tem a última palavra sobre a vida.
Seguimos como pessoas enraizadas no Evangelho, caminhando em comunhão com o povo e comprometidas com a vida em todas as suas formas. Seguimos confiantes de que, como nos ensina a Escritura, aqueles que permanecem em Cristo continuam a dar frutos mesmo em tempos difíceis (Jeremias 17.8).
Com gratidão pelo que vivemos, com responsabilidade diante do presente e com esperança no que ainda está por vir, seguimos.
Diocese Anglicana do Recife
37º Concílio Diocesano




