
Em Cantuária, as pedras são antigas como a fé, e os arcos góticos sussurram orações em latim e inglês arcaico.
O órgão entoa em tons milenares, e os vitrais filtram a luz divina em hinos de rubi.
Mas eis que em Carpina, ao lado do paralelepípedo da rua, onde o mundo passa distraído em seu rumo, há uma catedral sem muros, feita de gente, uma garagem aberta, com o coração de um humilde mundo.
O Bispo não está sob um dossel de ouro, mas sob o teto baixo de uma casa simples. Sua mitra é invisível, seu báculo, o abraço que ele oferece aos cansados e fatigados.
O Deão não entoa uma Evensong com um grande coro, mas com a voz rouca do povo, cansada do dia.
O órgão são as cordas vocais, com sua harmonia popular, acalentando a melodia do eterno Evangelho.
Em Cantuária, o incenso sobe em espirais precisas, como a lógica do credo no LOC de 1549.
Já em Carpina, o incenso é o cheiro da chuva na rua,
E a fumaça do café que se prepara no cantinho.
Aqui, a liturgia não está num missal gravado, está na: A paz do Senhor seja também contigo, entre cansados,
No abraço que afaga, no pão repartido, na certeza de que Cristo não habita só em santuários óbvios.
A beleza anglicana não é só a pompa e o canto, é a ordem que acolhe, o rito que abraça. É a mesma fé que, em Cantuária, ergueu um encanto, e em Carpina, transforma uma garagem em graça.
Portanto, que as pedras seculares testemunhem:
A glória de Deus não tem medida ou lugar. Ela ressoa no Gloriae dos sinos em Cantuária, e no Amém sincero da periferia a cantar.
Pois a verdadeira Catedral é o corpo vivo, onde o Bispo é pastor, o Deão é irmão.
E a liturgia mais bela é o amor vivo, que faz de Cantuária e Carpina uma só canção.
Autoria do texto: Rev. Estêvão Chiappetta




