Em meio à intensa movimentação do Porto de Suape, no litoral sul de Pernambuco, um trabalho discreto, mas essencial, tem impactado a vida de centenas de trabalhadores do mar. A capelania marítima, vinculada à Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, atua no acolhimento de tripulações que permanecem longos períodos embarcadas, muitas vezes enfrentando isolamento, tensões e situações de vulnerabilidade.
A iniciativa integra a missão internacional da Mission to Seafarers (Missão aos Marinheiros), presente em mais de 50 países e com atuação em cerca de 200 portos ao redor do mundo. Em Suape, o trabalho é conduzido pelo capelão e bispo emérito Dom Filadelfo Oliveira Neto, que realiza visitas regulares às embarcações e acompanha de perto a realidade das tripulações.
Segundo ele, a capelania marítima tem como foco central o cuidado com quem vive no mar. “A capelania é uma atividade que visa o bem-estar das pessoas que dedicam suas vidas a bordo das embarcações”, explica.
No cotidiano, a atuação envolve escuta ativa, aconselhamento espiritual e celebrações religiosas a bordo. Mas vai além. A equipe também oferece apoio prático, como fornecimento de medicamentos, recarga de celulares, distribuição de materiais e auxílio para que os tripulantes possam manter contato com suas famílias, um dos pontos mais sensíveis da rotina marítima.
“Visitamos os navios, verificamos a situação das tripulações e procuramos atender cada pessoa em suas necessidades, sejam elas espirituais, emocionais ou materiais”, detalha o bispo.

(Atividades da Capelania Marítima com Dom Filadelfo Oliveira Neto. Imagem: Acervo Pessoal)
O público atendido é formado por trabalhadores de diferentes nacionalidades e crenças, unidos por desafios comuns: longos períodos longe de casa, relações tensas a bordo e exposição constante a riscos. Nesse contexto, a presença da capelania se torna um ponto de apoio fundamental.
“O distanciamento das famílias e as pressões do trabalho podem gerar crises profundas. Precisamos estar atentos a cada situação para oferecer o cuidado necessário”, afirma Dom Filadelfo.
Entre o isolamento e o acolhimento
Para quem vive essa rotina no dia a dia, o impacto da capelania é concreto. A piloto de navio Janaína Menezes, que atua em operações em Suape desde 2010, relata que o contato com a iniciativa vai além do aspecto religioso.
“Eu conheci Dom Filadelfo nesses navios, onde ele sempre vai rotineiramente levar essa conexão espiritual, além de ofertar escuta e cuidado ao marítimo”, conta.
Espírita de formação, Janaína destaca que a experiência da capelania respeita a diversidade de crenças presentes a bordo, algo comum em tripulações internacionais.
“No mar, a gente fica muito distante de tudo que é estrutural dentro de uma sociedade. A fé é um caminho de fortalecimento da vida. E ter esse contato com a capelania é fundamental para manter essa fé viva”, afirma.
Segundo ela, um dos aspectos mais marcantes é o respeito entre diferentes religiões dentro das embarcações. “Mesmo com essa mistura de crenças, nunca houve objeção. Pelo contrário, existe interesse. Tripulações de outras religiões também participam, perguntam quando vai ter celebração. Isso é muito bonito”, relata.
Para Janaína, esse tipo de iniciativa cumpre um papel essencial na saúde emocional dos trabalhadores do mar. “Quando isso chega até nós, é como um acalento. Aquece o coração de quem está longe da família e da sua rotina”, completa.
Presença que vai além do religioso
Em muitos casos, o trabalho também envolve encaminhamentos mais complexos, como acompanhamento médico, suporte em situações de detenção e intermediação de contato com familiares. Para o capelão, essa atuação revela o caráter humanitário da missão.
“Em diversas situações, somos o único contato que esses trabalhadores têm com o ambiente de fora do navio. Nossa presença leva cuidado, escuta e dignidade”, ressalta.
A iniciativa conta com o apoio da Diocese Anglicana do Recife, reforçando o papel da igreja para além dos templos e aproximando a atuação religiosa de contextos concretos de vulnerabilidade. A capelania marítima se insere, assim, em uma perspectiva de missão que articula fé e ação social.
Ao alcançar trabalhadores que vivem entre portos e oceanos, a capelania marítima evidencia uma dimensão pouco visível da atuação da igreja: aquela que atravessa fronteiras, rompe o isolamento e leva cuidado a quem, muitas vezes, permanece à margem das narrativas sociais.




