Toda vocação carrega uma história antes de se tornar ministério. Ela nasce no cotidiano da família, nas primeiras experiências de fé, nas perguntas feitas ainda sem resposta e nos caminhos que Deus vai abrindo ao longo da vida. Na trajetória do Revdmo. Gustavo Gilson, essa caminhada foi sendo construída entre a fé herdada na infância, o amor pela educação, a inquietação diante das injustiças e o compromisso com uma igreja capaz de acolher, formar e reconstruir esperança.
Nascido em Natal, no Rio Grande do Norte, Gustavo cresceu em uma família de origem simples, marcada pelo trabalho, pela vida comunitária e pela presença intensa da igreja. Guarda na memória a infância na periferia, a convivência com avós costureiras e cozinheiras e o exemplo do pai, que estudou em escola pública, trabalhou desde cedo e foi o primeiro da família a concluir o ensino superior. Essas experiências ajudam a explicar a forma como ele compreende fé, educação e justiça social.
Hoje, aos 49 anos, Gustavo transita entre dois campos que se encontram em sua trajetória: a universidade e a igreja. É professor do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco, onde atua no Programa de Pós-Graduação em Educação, especialmente nas áreas de sociologia da educação, teoria do currículo, educação e pluralismo religioso. No campo eclesial, é presbítero da Diocese Anglicana do Recife e deão da Catedral Anglicana do Bom Samaritano, ministério que exerce de forma voluntária e vocacional há mais de duas décadas.
Ao longo dos anos, também foi reitor do Seminário Anglicano de Estudos Teológicos, o SAET, presidiu o Conselho Diocesano em diferentes mandatos, atuou em comunidades da Diocese, participou de comissões nacionais e internacionais da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil e hoje exerce funções ligadas às relações internacionais e à sustentabilidade diocesana. Em cada uma dessas frentes, sua atuação revela uma mesma marca: unir pensamento crítico, espiritualidade, serviço pastoral e compromisso com a missão de Deus.
Uma fé que aprendeu a fazer perguntas
A relação de Gustavo com a fé começou ainda na infância, no ambiente da Assembleia de Deus, onde foi criado. Filho de um pai que exerceu diferentes funções ministeriais, cresceu acompanhando a vida da igreja, lendo a Bíblia, participando da escola dominical e observando de perto a força da comunidade religiosa na vida das pessoas simples.
Mas, desde cedo, sua fé também foi atravessada por perguntas. Leitor precoce, tímido, introspectivo e profundamente interessado por literatura, música, teatro e Bíblia, Gustavo foi formando uma sensibilidade marcada tanto pela espiritualidade quanto pela reflexão. Autores da literatura brasileira, canções da música popular e a leitura das Escrituras passaram a compor sua formação humana e cristã.
Na juventude, essa inquietação o levou a buscar um espaço onde pudesse viver a fé sem esconder suas perguntas. Foi durante a universidade, especialmente por meio da Aliança Bíblica Universitária, a ABU, que encontrou um ambiente mais aberto ao diálogo, ao pensamento crítico e à convivência com diferentes tradições cristãs.

Foi nesse processo que conheceu o anglicanismo. A tradição episcopal anglicana surgiu, para ele, como possibilidade de viver uma fé intelectualmente honesta, existencialmente coerente e espiritualmente profunda. O encontro com a liturgia, com o Livro de Oração Comum, com a centralidade da Eucaristia e com uma visão de igreja aberta à diversidade marcou de forma definitiva sua caminhada.
“Minha inserção no anglicanismo começou com uma busca por uma fé intelectualmente e existencialmente honesta, uma fé em que eu pudesse fazer as perguntas abertamente e lidar com elas sem que isso gerasse escândalo, crise ou problema”, afirma.
Essa busca o conduziu ao Recife em 1999, ano decisivo em sua vida. Naquele período, concluiu a graduação em Psicologia, casou-se com Anna Luiza, mudou-se para Pernambuco, iniciou o mestrado em Sociologia na UFPE e passou a integrar a Igreja Anglicana. Era o início de uma nova etapa, marcada pela formação acadêmica, pelo ministério e por uma pertença cada vez mais profunda à Diocese Anglicana do Recife.
Educação, reconstrução e serviço
Na caminhada de Gustavo, fé e educação nunca foram dimensões separadas. A universidade ofereceu ferramentas para compreender a sociedade, as relações de poder, os processos educativos e a diversidade religiosa. A igreja, por sua vez, ofereceu um lugar de serviço, discernimento, comunhão e formação espiritual.
Essa integração aparece de forma especial em sua relação com a educação teológica. Entre 2002 e 2008, Gustavo foi reitor do SAET, período que considera curto, mas intenso. A experiência ampliou sua relação com a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil e fortaleceu sua vocação para a formação de lideranças.
Sua preocupação com fé, sociedade e direitos humanos também nasce de sua própria origem social. A infância na periferia de Natal, o contato com famílias simples, a convivência com desigualdades sociais e raciais e, mais tarde, a atuação no Centro de Direitos Humanos e Memória Popular de Natal ajudaram a formar uma consciência profundamente ligada à justiça.
“Eu começava a perceber que o chamado de Jesus é para que as pessoas tenham vida e vida em abundância, para que tenham liberdade, para que possam se reconhecer como pessoas dignas e plenas, sujeitas da própria história”, recorda.
Entre os momentos mais decisivos de sua trajetória está o processo de crise e reconstrução vivido pela Diocese Anglicana do Recife a partir dos anos 2000. O período de cisma foi marcado por tensões institucionais, perdas profundas e pela necessidade de manter viva a caminhada da Diocese ligada à Igreja Episcopal Anglicana do Brasil.
Naquele contexto, o Seminário Anglicano de Estudos Teológicos tornou-se um espaço de refúgio para clérigos, seminaristas, jovens e lideranças que decidiram permanecer na IEAB. Em meio à fragilidade institucional, o grupo encontrou na fé, na amizade e na vida comunitária a força necessária para continuar.
Para Gustavo, essa foi uma das experiências ministeriais que mais exigiu amadurecimento. A Diocese perdeu estruturas, comunidades e propriedades, mas não perdeu sua vocação. A partir de um grupo pequeno, sustentado pela esperança e pela fidelidade ao Evangelho, iniciou-se um processo lento de reconstrução.

“Foi muito forte perceber que, mesmo nos momentos de maior fragilidade, essa promessa de Deus permanece forte. Ela sobrevive quando o aparato institucional está praticamente desmontado”, reflete.
Anos depois, essa reconstrução encontrou um símbolo importante na reabertura da Paróquia do Bom Samaritano e, posteriormente, na consolidação da Catedral Anglicana do Bom Samaritano como Sé da Diocese. Convidado pelo Bispo João Câncio Peixoto Filho para ajudar nesse processo, Gustavo participou diretamente da reorganização da comunidade.
Hoje, como deão da Catedral, ele enxerga esse tempo como uma das experiências mais gratificantes de seu ministério. A Catedral se tornou não apenas um espaço litúrgico, mas também um sinal de resistência, acolhimento, memória e futuro para a Diocese Anglicana do Recife.
Memória, esperança e legado
Ao refletir sobre o papel da Diocese Anglicana do Recife no cenário religioso e social do Nordeste, Gustavo reconhece que o anglicanismo é uma presença minoritária no Brasil. Ainda assim, acredita que a Diocese ocupa um lugar fundamental por seu testemunho de fé aberta, acolhedora e comprometida com a dignidade humana.
Para ele, a importância da igreja não está no tamanho numérico, mas na capacidade de ser abrigo para pessoas feridas por experiências religiosas excludentes, espaço de formação para novas lideranças e presença pública em defesa da justiça, do diálogo ecumênico, dos direitos humanos e da vida comunitária.
Ao olhar para a própria caminhada, Gustavo costuma relacionar três palavras que ajudam a compreender sua trajetória: memória, esperança e reinvenção. Memória, porque ninguém constrói uma vocação sozinho. Esperança, porque a fé cristã convida a não se conformar com as injustiças do mundo. Reinvenção, porque a vida em Deus exige coragem para mudar, amadurecer e recomeçar.
Quando pensa nas futuras gerações, afirma que gostaria de deixar duas contribuições principais: uma igreja mais estruturada do que aquela que encontrou e uma geração de lideranças formadas para servir à missão de Deus.
“Minha maior alegria no ministério, e talvez na minha vida até agora, é quando vejo pessoas que ajudei a formar florescerem, frutificarem, desabrocharem e fazerem diferença nos espaços em que estão”, afirma.
Entre a universidade e a igreja, entre a memória da infância em Natal e a reconstrução da Diocese no Recife, entre a reflexão acadêmica e a mesa da Eucaristia, a trajetória de Gustavo Gilson revela uma vocação moldada pela fidelidade, pela escuta e pelo compromisso com a vida.
Na história da Diocese Anglicana do Recife, sua presença se inscreve como parte de uma geração que atravessou crises, sustentou comunidades e ajudou a preparar caminhos para o futuro. Uma geração que aprendeu, na prática, que a promessa de Deus permanece viva mesmo quando tudo parece frágil, e que a missão da igreja continua quando há pessoas dispostas a reunir fé, coragem e amor para servir.




