A data de 03 de julho, reservado no calendário brasileiro como o Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial. Como Igreja, somos convidados e convidadas a recordar à sociedade a dignidade da pessoa humana, uma vez que cremos que o gênero humano foi criado à imagem e semelhança do Deus ao qual adoramos (Gn 1:27). Nesse sentido, a tarefa civil de combater a discriminação racial exige de nós o compromisso de denunciarmos que o racismo, além de ser uma injustiça social, é um pecado, pois nega a dignidade da Criação. O racismo, portanto, não se coaduna com a fé cristã.
Não é sem razão que o país destine um dia nacional para o combate à discriminação racial. O Brasil vivenciou mais de três séculos de escravidão, cujas consequências permanecem visíveis em nossa sociedade como sintomas do racismo que estrutura a nação. Dentre as consequências, a desigualdade social e a violência, que atingem de modo desproporcional a população negra, são a mais eloquente prova. Frente a isso, precisamos atentar que temos apenas aproximadamente 50 anos de estruturação da luta por reparação social, se considerarmos a criação do Movimento Negro Unificado (MNU) como marco. Definitivamente, essa é uma data necessária para o Brasil.
Fazendo um recorte dessa história, no que diz respeito ao Cristianismo no país, sabemos que as igrejas cristãs cooperaram com o sistema escravocrata na medida em que algumas lideranças deram fundamentação teológica para a escravidão e organizações cristãs tiveram, elas próprias, seus escravizados. A recente publicação do Dossiê “388 anos de escravidão: e a Igreja com isso?”, do Movimento Negro Evangélico (MNE) recoloca, no contexto Protestante (incluído o Anglicanismo), a incômoda recordação de que temos parte nesse pecado e, por consequência, temos o dever de nos engajarmos tanto no combate à discriminação racial, quanto na luta pela justiça racial.
Nessa perspectiva, vale à penas recorda aquilo que já sinalizou a Resolução 16 (racismo) da Conferência de Lambeth de 1968:
A Conferência reconhece, em espírito de penitência, que as Igrejas da Comunhão Anglicana falharam em aceitar o custo de um testemunho coletivo da sua unidade em Cristo, e conclama-as a reexaminar a sua vida e as suas estruturas a fim de dar expressão às exigências do Evangelho
(a) pela inclusividade do seu culto,
(b) pela criação de um clima de acolhimento na sua vida comunitária, e
(c) pela justiça na alocação e nomeação de pessoas.
Além disso, a Conferência conclama as Igrejas a insistirem, junto aos governos e às comunidades, sobre o dever de promover os direitos humanos e as liberdades fundamentais entre todos os seus povos.
Dado o exposto, a data de 03 de julho é uma excelente oportunidade de recordarmos esse compromisso e de reconhecermos que, no contexto brasileiro, embora tenhamos algum nível de compromisso antirracista, ainda não conseguimos oferecer uma resposta estruturada a essa conclamação. Precisamos, como Província brasileira da Comunhão Anglicana dar passos em direção a essa tarefa, como a organização de um sodalício voltado às questões raciais, em nível provincial.
Rev. Adriano Portela dos Santos




