Anglicanos discutem descolonização da fé – Colóquio Internacional reuniu pessoas de vários países para debater a necessidade de superação da perspectiva eurocêntrica no cristianismo global.

Anglicanos brasileiros e de outros países se reuniram no Colóquio Internacional sobre Educação Teológica e Pós/De(s)colonialidade: Teologia e Lutas por Justiça Climática e Igualdade Social. O evento aconteceu no Marante Plaza Hotel, em Boa Viagem, no Recife entre os dias 28 e 30 de novembro.

O evento foi promovido pelo Seminário Anglicano de Estudos Teológicos (SAET) da Diocese Anglicana do Recife, em parceria com importantes organizações internacionais, incluindo a Aliança Anglicana, United Society Partners in the Gospel (USPG), Christian Aid e parceiros nacionais como a JUNET (Junta Nacional de Educação Teológica da IEAB), CEA (Centro de Estudos Anglicanos), CESE (Coordenadoria Ecumênica de Serviço), o Laboratório de Estudos de Religião e Política (LABERP/FUNDAJ) e o Grupo de Pesquisa Discurso, Subjetividade e Educação (DSE/PPGEDU/UFPE).
A discussão foi promovida para pensar a fé Anglicana por meio de uma perspectiva pós-colonial e decolonial. “Infelizmente as missões cristãs dos séculos XIX e XX foram promotoras de uma cultura eurocêntrica, branca, patriarcal, racista, predatória e uma das coisas que a Comunhão Anglicana tem sido cobrada a discutir recentemente é a necessidade de fazer uma autocrítica profunda e de reconhecer que a fé cristã não pode continuar a ser aliada de discursos e estruturas de opressão e destruição”, destacou o Reverendo Gustavo Oliveira, professor da UFPE, Deão da Catedral Anglicana do Bom Samaritano e um dos coordenadores do evento.
O Bispo João Peixoto, líder da Diocese Anglicana do Recife, ressaltou a importância de discutir o assunto na atualidade: “O tema da descolonização é extremamente importante para os dias de hoje e para o futuro, não só para a Igreja Anglicana, mas para todo o debate teológico no Brasil e no mundo. Por isso, esse é um evento que vai trazer uma visibilidade bem maior para Igreja do Brasil e em especial para nossa Diocese Anglicana do Recife. O Seminário Anglicano de Estudos Teológicos está de parabéns por toda organização, por ter escolhido o tema e pessoas tão significativas para participar do debate”.
O Colóquio Internacional já é considerado um evento que marca história do anglicanismo no Brasil, contribuindo para um cristianismo mais aberto e comprometido com as lutas por justiça e dignidade de povos e grupos sociais historicamente violentados e vulnerabilizados. “Nós estamos inaugurando aqui uma rede de teologia para discutir e refletir sobre a questão da descolonialidade. Isso é muito importante para a gente, porque envolve diferentes temas da ação, da missão e da vida da Igreja, questionando como temos realizado as nossas tarefas e como a gente pode realizar a partir de um olhar de descolonização”, acrescentou o Bispo da Diocese Anglicana de Brasília, Maurício Andrade.
O evento foi importante para ouvir as vozes de comunidades indígenas que fazem parte da Comunhão Anglicana. “Nós pensamos em organizar esse evento para colocar em diálogo as vozes e teologias das comunidades tradicionais de diferentes partes da Comunhão Anglicana que normalmente não são ouvidas e não são promovidas”, disse o assessor teológico da United Society Partners in the Gospel (USPG) e da Aliança Anglicana, Dr. Paulo Ueti.
O Colóquio reuniu pessoas pesquisadoras e militantes de comunidades indígenas, quilombolas e de povos tradicionais da África, Ásia, Pacífico e América Latina para colaborar na construção de um diálogo teológico em que todas as histórias e tradições sejam acolhidas. “Esse Colóquio Internacional é importante não só para as comunidades indígenas, mas também para as Igrejas, em especial, as Igrejas Anglicanas, porque permite uma aproximação realmente aberta para escutar uma diversidade de vozes e de pensamentos”, comentou a ativista e representante da organização Memória Indígena, do Panamá, Jocabed Solano Miselis.
O debate também teve como objetivo propor uma formação Anglicana levando em consideração a riqueza e profundidade cultural da população brasileira. “A liturgia precisa ser renovada a partir desses elementos das culturas afro, das culturas indígenas, dos povos originários, aquilo que os saberes tradicionais podem trazer”, detalhou o Coordenador do Seminário Anglicano de Estudos Teológicos (SAET), Reverendo Esdras Peixoto.
Ao final dos trabalhos, entre outros encaminhamentos práticos, foi lançada a Rede de Estudos sobre Anglicanismo, (Pós/Des)Colonialidade e Educação Teológica (REACET) que terá a responsabilidade de dar continuidade aos debates e articulações desenvolvidas a partir do evento.
