Há encontros que parecem pequenos aos olhos do mundo, mas que, pela graça de Deus, tornam-se sementes de algo muito maior. Uma conversa, uma oração, uma casa de portas abertas, pessoas reunidas para partilhar a fé, a cultura e a vida. É assim que pode ser compreendida a caminhada da Missão Anglicana Santa Maria Madalena, em João Pessoa. Uma comunidade que nasceu do encontro e que, ao longo dos anos, vem descobrindo que fazer missão também é permanecer ao lado das pessoas, especialmente quando a vida se apresenta marcada pela dor, pela solidão ou pela exclusão.
A presença anglicana em João Pessoa remonta a 1995, mas a atual caminhada da Missão nasceu de maneira particular. O projeto foi inspirado pelo músico e teólogo Xico Esvael, in memoriam, e por sua esposa, Eliana Esvael. Na casa do casal, os encontros reuniram pessoas para saraus literários e musicais, conversas sobre cultura, projetos sociais, política, espiritualidade e fé. Aqueles momentos construíram vínculos e ajudaram a formar uma comunidade que entendia a experiência cristã como parte de uma vida comprometida com o mundo.
Após o falecimento de Xico, em 2018, amigos e participantes daqueles encontros se reuniram para celebrar sua memória e agradecer pela vida que havia sido partilhada. Daquele encontro nasceu também um novo sonho: reconstruir uma presença anglicana em João Pessoa. Em 2019, a Missão Anglicana Santa Maria Madalena foi oficialmente instalada pelo Bispo Diocesano, Dom João Câncio Peixoto.
Nos primeiros cinco anos, a comunidade esteve sob a condução da Reverenda Eliane Cristina. Em 2025, o Reverendo Rafael Paulino assumiu a missão e, em março de 2026, o diácono Anderson Soares tornou-se ministro encarregado. A mudança de lideranças, porém, não rompeu o fio da história. Pelo contrário, reafirmou uma característica presente desde o início: a capacidade de renovar pessoas, formas e caminhos sem perder o compromisso essencial com o Evangelho.
Anderson, de 39 anos, professor, casado com Taciene e pai de Liz Maria, também carrega uma longa história de serviço na Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. Sua caminhada começou em 1998, quando a IEAB chegou a Caaporã, na Paraíba. Passou pelo ministério de louvor, grupos de adolescentes e juventude, Escola Bíblica e cultos nos lares. Em 2005, iniciou os estudos teológicos no Seminário Anglicano de Estudos Teológicos (SAET), experiência que aprofundou sua formação e sua compreensão sobre a amplitude da Comunhão Anglicana. Em novembro de 2025, foi ordenado diácono por Dom João Câncio Peixoto. Poucos meses depois, chegou a João Pessoa para assumir uma nova etapa de seu ministério.
Uma comunidade inspirada por Maria Madalena
Não é por acaso que a comunidade carrega o nome de Santa Maria Madalena. Na tradição cristã, Maria Madalena é lembrada como testemunha da ressurreição e como aquela que permaneceu junto a Jesus nos momentos de sofrimento. Para a Missão, sua memória aponta para uma Igreja que escolhe estar ao lado de quem enfrenta suas próprias experiências de cruz.
A comunidade procura traduzir essa inspiração em uma prática de acolhimento especialmente voltada às pessoas que historicamente experimentaram exclusão. Pessoas LGBTQIA+, pessoas negras, pessoas em situação de vulnerabilidade e aquelas afastadas de instituições religiosas encontram na Missão a proposta de um espaço onde a fé não seja utilizada como instrumento de julgamento, mas como caminho de dignidade, cuidado e esperança.
“Seguir o exemplo de Maria Madalena significa assumir, com coragem e ternura, o compromisso de estar ao lado de quem sofre, de anunciar a ressurreição onde há morte e de testemunhar que o amor de Deus não exclui ninguém”, afirma Anderson.
Essa perspectiva também se expressa no perfil diverso da comunidade. Adolescentes, adultos e idosos participam das atividades presenciais e virtuais. Homens e mulheres, pessoas heterossexuais e LGBTQIA+, vindas de diferentes tradições religiosas e de diferentes estados brasileiros, encontram na Missão caminhos distintos para chegar à experiência anglicana.
Algumas pessoas chegam em busca de uma comunidade onde possam viver a fé sem preconceitos e longe de experiências de abuso espiritual. Outras chegam por um chamado religioso, por mudanças profissionais, por curiosidade ou por terem conhecido o anglicanismo ainda na infância ou adolescência. Em comum, permanece o desejo de encontrar uma Igreja onde seja possível pertencer sem precisar abrir mão da própria história.
A espiritualidade da Santa Maria Madalena se organiza em torno daquilo que a comunidade considera essencial ao jeito anglicano de viver a fé: a Bíblia, a Eucaristia, a oração, a convivência e o cuidado com o próximo. O Livro de Oração Comum e a tradição anglicana ocupam lugar importante nessa caminhada.
“Somos uma comunidade que ama a Bíblia, as pessoas e a Santíssima Trindade e que temos um zelo enorme pelo nosso Livro de Oração Comum e pela tradição anglicana”, resume Anderson.
Fé que encontra o território e sonha com o futuro
Instalada no bairro dos Funcionários II, em João Pessoa, a Missão também procura compreender as necessidades presentes ao seu redor. A região enfrenta situações de vulnerabilidade social e episódios de violência relacionados à disputa territorial entre facções. Diante de uma realidade complexa e de uma comunidade ainda pequena, a missão reconhece seus limites, mas procura construir respostas possíveis.
Entre as iniciativas realizadas estão um curso de doces artesanais voltado para mulheres, em 2023, e um curso básico de inglês, realizado entre janeiro e março de 2024, que reuniu moradores do entorno de diferentes idades e gêneros. As ações representam uma tentativa de aproximar a comunidade da realidade concreta do território e transformar o espaço da Igreja também em lugar de formação e convivência.
Atualmente, um dos grandes desafios está justamente em fortalecer essa presença. As distâncias dentro da própria região metropolitana, os compromissos profissionais aos finais de semana e questões familiares dificultam a participação presencial de parte dos membros e congregados. Há ainda pessoas que se afastaram por questões relacionadas à saúde mental, como ansiedade e depressão.
Mesmo diante dessas dificuldades, a Missão tem encontrado nas ferramentas digitais uma nova possibilidade de encontro. As orações realizadas às segundas-feiras, às 20h, por meio do Google Meet, reúnem entre 10 e 18 participantes e alcançam pessoas de diferentes cidades da Paraíba, outros estados brasileiros e até Portugal. A partir das orações de Uso Individual e em Família e da Oração da Noite do Livro de Oração Comum, o espaço virtual tornou-se também uma porta de entrada para pessoas interessadas em conhecer o anglicanismo.
A comunidade também vive um novo momento com a reforma de sua casa de missão, iniciada em 18 de agosto de 2026. A expectativa é que a melhoria do espaço ofereça mais conforto e segurança para as celebrações e atividades e contribua para a chegada de novas pessoas.
O sonho é que, com o crescimento da participação, a Missão Santa Maria Madalena possa futuramente ser elevada à condição de paróquia. A divulgação pelas redes sociais já tem ampliado a visibilidade da comunidade e despertado o interesse de pessoas de João Pessoa e de outras cidades paraibanas.
O desejo para o futuro, porém, não se resume ao crescimento numérico. É, sobretudo, permanecer fiel à identidade que sustenta a comunidade desde seus primeiros encontros: uma Igreja acolhedora, inclusiva, profundamente ligada à espiritualidade anglicana e comprometida com a dignidade humana.
Ao olhar para a caminhada da Missão Santa Maria Madalena, a história revela que uma comunidade pode nascer de uma casa, atravessar o tempo, enfrentar mudanças e continuar encontrando novas formas de anunciar o Evangelho. Da memória de Xico Esvael às novas gerações que chegam, existe um mesmo fio conduzindo essa trajetória: a convicção de que a fé ganha sentido quando se transforma em presença.
Na cidade de João Pessoa, a Missão deseja continuar sendo exatamente isso: presença. Um lugar de oração e celebração, mas também de escuta, acolhimento e encontro. Um espaço onde diferentes histórias possam se aproximar da mesa, da Palavra e da comunidade.
E, inspirada por Maria Madalena, uma mulher que testemunhou a vida quando tantos ainda enxergavam apenas a morte, a comunidade segue seu caminho com uma esperança que também é missão: anunciar que a ressurreição continua sendo possível sempre que o amor, a dignidade e a graça encontram espaço para florescer.
Quarta reportagem da série “Comunidades em Missão”.




