Há comunidades que crescem pelo número de pessoas. Outras permanecem vivas porque aprenderam que a verdadeira força da Igreja nasce da fidelidade ao Evangelho. A Paróquia Anglicana da Ascensão, localizada na Várzea, Zona Oeste do Recife, pertence a esse segundo grupo. Sua história não é marcada apenas por datas ou edifícios, mas pela perseverança de uma comunidade que atravessou diferentes momentos da Diocese Anglicana do Recife sem perder de vista sua vocação de anunciar Cristo por meio da oração, da justiça e do cuidado com as pessoas.
Integrante da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), a Ascensão faz parte da caminhada missionária construída pela Diocese Anglicana do Recife ao longo de seus 50 anos de história. Em cada celebração, círculo bíblico, gesto de acolhimento e ação pastoral, a comunidade reafirma aquilo que sempre caracterizou o anglicanismo: uma fé profundamente enraizada na tradição cristã, aberta ao diálogo com o mundo e comprometida com a transformação da realidade.
A comunidade nasceu como Paróquia Anglicana do Redentor, ainda na década de 1980. Era um tempo em que a Diocese expandia sua presença missionária pelo Nordeste, levando a mensagem do Evangelho para bairros populares e regiões marcadas pelo trabalho operário. Na antiga Brasilit, a Igreja encontrou um território onde a fé caminhava lado a lado com as lutas cotidianas de homens e mulheres que buscavam dignidade, esperança e comunidade.
Uma comunidade nascida junto ao povo
O atual pároco, reverendo Esdras Peixoto, recorda que a origem da comunidade está profundamente ligada ao compromisso social vivido pela Diocese naquele período.
“A comunidade nasceu dentro de uma perspectiva de teologia popular e da libertação. Era uma igreja voltada para trabalhadores e trabalhadoras da região, respondendo aos desafios daquele tempo e testemunhando o Evangelho junto ao povo”, afirma.
Ao longo das décadas, a comunidade experimentou momentos de crescimento, reorganização e também de profundas dificuldades. Assim como toda a Diocese Anglicana do Recife, enfrentou os impactos do período de divisão institucional vivido nos anos 2000, quando diversos templos ficaram fora da posse da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. A retomada do patrimônio significou também a reconstrução da vida comunitária.
Foi nesse novo tempo que a antiga Paróquia do Redentor passou a ser conhecida como Paróquia Anglicana da Ascensão, renovando não apenas seu nome, mas reafirmando sua missão de permanecer fiel ao Evangelho e à identidade anglicana.
Espiritualidade que gera compromisso
Hoje, a Ascensão procura cultivar uma espiritualidade que une contemplação e missão.
Inspirada na tradição patrística e no legado do Movimento de Oxford, a comunidade tem buscado resgatar práticas antigas da Igreja, como o silêncio, a meditação, a oração contemplativa e a centralidade da liturgia, oferecendo um espaço de descanso espiritual em meio à velocidade da vida contemporânea.
“Nós queremos ser uma comunidade de espiritualidade patrística, voltada às fontes dos pais e mães da Igreja. Buscamos oferecer um Evangelho para pessoas cansadas, marcado pelo silêncio, pela contemplação e pela redescoberta da presença de Deus no cotidiano”, diz Esdras.
Mas essa experiência espiritual não permanece restrita ao altar.
A mesma comunidade que cultiva a contemplação também procura responder às necessidades concretas da sociedade. Entre suas iniciativas está a reorganização da Pastoral Vida nas Ruas, inspirada no projeto Gente é Para Brilhar, desenvolvido anteriormente pela Catedral Anglicana do Bom Samaritano, além da criação da Pastoral do Bem Viver, dedicada à reflexão sobre justiça climática, sustentabilidade, povos indígenas, comunidades quilombolas e o cuidado com a criação.
Para o reverendo, oração e compromisso social fazem parte da mesma vocação cristã.
“Nós queremos ser uma comunidade socialmente relevante, comprometida com a justiça, mas também profundamente orante, centrada na Bíblia, na liturgia e na contemplação. Essas dimensões caminham juntas e revelam o jeito anglicano de viver a fé”, reflete.
Uma Igreja que continua caminhando
Os desafios atuais também fazem parte dessa história.
Sem um templo definitivo, a comunidade vive um período de itinerância, reunindo-se em casas, espaços cedidos por outras igrejas e ambientes ecumênicos enquanto trabalha na reconstrução de sua estrutura física e na criação de formas sustentáveis de manter sua missão.
Mais do que levantar paredes, a Ascensão procura fortalecer pessoas.
“Nós estamos reconstruindo a comunidade e também nossos espaços. Mas aquilo que nos mantém unidos não é um prédio. É o desejo de continuarmos caminhando juntos como Igreja”, afirma o pároco.
Esse tempo de reconstrução também inspira novos projetos voltados à sustentabilidade financeira da comunidade e ao fortalecimento da presença anglicana na Zona Oeste do Recife, preservando a vocação missionária que acompanha a paróquia desde sua fundação.
Ao olhar para o futuro, Esdras resume aquilo que deseja deixar como legado.
“Queremos ser uma comunidade orante, comprometida com a justiça social e com a construção do Reino de Deus. Se conseguirmos viver isso com fidelidade, teremos contribuído para a Diocese e para a missão da Igreja no Nordeste”, diz.
Segunda reportagem da série Comunidades em Missão, esta matéria apresenta uma comunidade que escolheu fazer do silêncio uma forma de testemunho, da contemplação um caminho de encontro com Deus e da justiça social uma consequência natural da fé. Em tempos marcados pela pressa e pelo ruído, a Paróquia Anglicana da Ascensão recorda que a Igreja continua sendo lugar onde pessoas se reúnem para escutar a Palavra, repartir a vida e renovar, juntas, a esperança no Reino de Deus.




