Em um cenário onde religião e diversidade ainda são frequentemente colocadas em lados opostos, a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil tem se destacado por promover uma vivência de fé baseada no acolhimento e no respeito à diversidade. Em Pernambuco, a Diocese Anglicana do Recife tem reunido histórias que mostram como a espiritualidade pode coexistir com diferentes identidades de gênero e orientações sexuais.
Entre fé, identidade e pertencimento
Para muitas pessoas LGBTQIA+, o caminho da fé foi marcado por conflitos, silenciamentos e afastamentos. É o caso de Anthony Gebson, homem gay, de 42 anos, que hoje atua ativamente na igreja ao lado do companheiro, participando do ministério de louvor, de ações sociais e da organização comunitária. Antes de chegar à Igreja Episcopal Anglicana, ele viveu experiências de rejeição em outros espaços religiosos. “Houve momentos em que pensei em desistir da fé, porque não me sentia acolhido como sempre fui”, relata.
A virada veio em meio à pandemia, quando, após um período de afastamento, encontrou na Paróquia Jesus de Nazaré, em Olinda, um espaço de escuta e cuidado. Em um momento de crise pessoal, Anthony conta que foi acolhido de forma decisiva por uma liderança da igreja. “Ali eu entendi que o amor de Deus é uma experiência individual. Nunca mais me senti sem o cuidado Dele”, afirma.
Do conflito ao acolhimento
Histórias como essa também dialogam com a trajetória de Eliel Rodrigues Lucena, homem bissexual que atua na comunicação da igreja e como ministro pastoral. Criado em um contexto religioso tradicional, ele passou anos vivendo entre a fé e a negação de sua própria identidade. “Eu me escondia de quem eu era. Vivia isolado, com medo de ser condenado”, lembra.
O encontro com a Igreja Episcopal Anglicana representou uma ruptura com esse ciclo. “Foi um alívio. Poder estar em um espaço onde eu não precisava fingir, onde pudesse viver minha fé sendo quem eu sou, foi como tirar um peso das costas”, conta. Para ele, o acolhimento vai além do discurso e se manifesta em gestos cotidianos, como poder viver sua relação afetiva sem medo ou constrangimento dentro da igreja.
A importância de uma igreja inclusiva
Já para Jéssica Cavalcanti, de 34 anos, mulher lésbica, casada, a experiência de pertencimento também está diretamente ligada à postura institucional da igreja. Frequentadora da comunidade, ela destaca a importância de espaços religiosos inclusivos, especialmente diante de experiências negativas vividas em outros contextos. “Já ouvi pessoas dizendo que iriam orar para que meu casamento acabasse. Então saber que a igreja que frequento é inclusiva me traz tranquilidade”, afirma.
Na avaliação dela, o acolhimento promovido por igrejas inclusivas tem impacto direto não apenas na vida dos fiéis, mas também na sociedade. “A gente ainda enfrenta estranhamento e até condenação em alguns espaços, mas vejo que há um avanço no respeito e na compreensão”, pontua.
Apesar dos avanços, os desafios ainda são evidentes. Para Jéssica, o primeiro passo é o reconhecimento da existência das famílias LGBTQIA+. “Nós existimos, temos fé e amamos o evangelho como qualquer outra pessoa. Amar a Deus não anula quem somos nem quem amamos”, destaca.
Uma igreja que acolhe na prática
A experiência desses fiéis dialoga diretamente com o posicionamento institucional da igreja, que se define como um espaço aberto, plural e comprometido com a inclusão. Para o bispo diocesano Dom João Câncio Peixoto Filho, esse princípio está na base da identidade anglicana.
“Uma das coisas que mais me chamou atenção quando conheci a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil foi o fato de ela não se colocar como a única e verdadeira Igreja de Cristo, mas como parte de um corpo, que é o corpo de Cristo, tendo Jesus como cabeça. E, ao mesmo tempo, a sua inclusividade, essa maneira de acolher, de abraçar e de amar todas as pessoas, independentemente de gênero, raça, condição social ou orientação sexual”, afirma.
Segundo ele, a proposta da igreja é seguir o exemplo de Jesus no acolhimento, especialmente às pessoas historicamente marginalizadas. “A nossa igreja está sempre de portas abertas para todos e todas, em especial para as pessoas mais discriminadas da sociedade, para que possam ser acolhidas como filhos e filhas de Deus”, completa.
Há pelo menos sete anos, a Diocese Anglicana do Recife também realiza casamentos religiosos entre pessoas do mesmo sexo, consolidando, na prática, o compromisso com a inclusão e o reconhecimento das diferentes formas de amor dentro da vivência de fé. A iniciativa reforça uma trajetória que vai além do discurso e se traduz em ações concretas de acolhimento e legitimidade dentro da comunidade religiosa.
Celebração e trajetória
Essa perspectiva de acolhimento e compromisso social ganha ainda mais relevância em 2026, quando a Diocese Anglicana do Recife celebra seus 50 anos de atuação. A data também marca os 30 anos da Catedral Anglicana e os 10 anos do Seminário Anglicano de Estudos Teológicos (SAET), consolidando uma trajetória construída a partir do diálogo, da inclusão e da atuação junto às populações mais vulneráveis.
Nesse contexto, a fé deixa de ser um espaço de exclusão para se tornar um território de reconstrução. Entre histórias de dor, reencontro e transformação, o que se evidencia é uma mudança de perspectiva: a possibilidade de viver a espiritualidade sem abrir mão da própria identidade.




