
A Diocese Anglicana do Recife celebrou no último final de semana (16/11/2025), uma grande festa de ação de graças. Parafraseando o poeta: “Jesus tem abençoado com sua mão divina” a Missão São Francisco, que com grandes provas de testemunho e missão tem levado as cinco marcas da missão que identificam o jeito de ser anglicano para o sertão do estado de Pernambuco.

Em sua visita pastoral anual, o Bispo João C. Peixoto, recebeu cinco novos membros para a Missão, instituiu dois irmãos ao Ministério Leigo Pastoral: Delcides Marques e Francisco Leite da Silva, além de ordenar a mais nova diácona da Diocese Anglicana do Recife, a Revda. Santinha. Momento marcado por for representação de diferentes representações da luta por incidência pública, representantes interreligiosos e ecumênicos. Momento marcado também por simbolismo histórico, pois na paramentação da nova diácona, ela utilizou a mesma estola diaconal utilizada pela primeira mulher ordenada na IEAB – a Revda. Carmen Etel.
A Revda. Santinha e os novos ministros pastorais, somam esforços com o Revdo. Herlon Bezerra, na construção da futura Paróquia Anglicana no sertão de Pernambuco. Sobre a mais nova reverenda da Diocese Anglicana do Recife, temos a oportunidade de conhecê-la melhor, lendo o sermão proferido pelo Revdo. Herlon Bezerra na ocasião:
HOMILIA – ORDENAÇÃO DIACONAL DE SANTINHA / 16.11.2025
Malaquias 4:1-2a; Salmo 98; 2Ts 3.6-13; Lc 21.5-19
Queridas/os/es, povo que cultua o Amor-que-tudo-criou-e-sustenta, as leituras de hoje soam fortes, quase duras:
Malaquias fala de um “dia que vem” como fogo que queima a arrogância, desmonta a prepotência, desmascara quem explora o povo. Mas, para quem teme o nome do Deus Libertador, esse mesmo dia é “sol de justiça”, que nasce trazendo cura (Ml 4,1-2a).
O Salmo 98 nos manda cantar um cântico novo, porque esse Deus intervém na história, faz justiça às nações, não fica neutro diante da opressão. E é bonito notar que o salmo não fala só de gente: fala de rios batendo palmas, montes saltando de alegria, criação inteira entrando no coro. A justiça de Deus é também boa notícia para nossa Casa Comum.
Quem redigiu a segunda carta aos Tessalonicenses, fala de trabalho, de não viver às custas dos outros (2Ts 3,6-13). Esse texto, tantas vezes usado de forma cruel contra as pessoas empobrecidas por sistemas sociais iníquos, não é chicote neoliberal na mão de quem está no topo, mas uma palavra à comunidade: não é tempo de cruzar os braços, é tempo de construir juntas, de não parasitar o esforço alheio.
E o evangelho de Lucas? As seguidoras de Jesus estão encantadas com a beleza do Templo: pedras enormes, enfeites, ofertas. O Nazareno, porém, já meio sem paciência com esse fascínio arquitetônico, afirma: “Não ficará pedra sobre pedra” (Lc 21,5-19).
Quando tudo parece balançar – guerras, perseguições, traições, crises – Jesus não promete segurança de condomínio. Promete testemunho. Promete palavra colocada na boca. Promete perseverança: “É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida”.
Em seu conjunto, as leituras de hoje nos colocam numa encruzilhada: entre o mundo que desaba e o mundo novo que nasce; entre estruturas religiosas bonitas por fora e um Deus que escolhe ficar do lado de fora, com quem sofre; entre uma fé que se acomoda e uma fé que se faz serviço, diaconia.
Nada mais adequado para este dia, em que a vocação crística de Santinha é reconhecida em sua ordenação diaconal. Coloca-se, assim, uma das pedras angulares da recente história de nossa comunidade episcopal anglicana em Petrolina, que hoje celebra este momento com irmãs de outras tradições de fé, mostrando que a Divina Ruah não aceita fronteiras estreitas.
*
Aliás, temos aprendido na história do povo de Deus que, quando a Igreja reconhece, apenas está se dando conta daquilo que a o que o Espírito começou muito antes.
Hoje não é o dia em que o Pai e Mães de nós todas começa a se mover na vida de Santinha. Hoje é o dia em que a Igreja corre atrás do prejuízo e reconhece, com atraso, o que o Espírito já vinha fazendo nela há muito tempo.
Cícera Josefa Rodrigues, a Santinha, não caiu de paraquedas no diaconato. Ela vem de chão firme: da luta por sobrevivência, por moradia, por segurança alimentar, educação, saúde, das redes feministas populares, do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, do Movimento das/os Trabalhadoras/es Cristãs/ãos, da Associação das Mulheres Rendeiras, dessa história tão bonita de mulheres que transformam linha, renda, suor e afeto em cultura, renda, dignidade, organização popular.
Na Missão São Francisco – e me arrisco a dizer em nossa Diocese Anglicana do Recife e Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – Santinha tem nos ensinado aquele tipo de teologia que não cabe em manual: que nasce de acompanhar vizinhas, de visitar casas, de viver fé no sindicato, nas pastorais, no bairro, no ponto de cultura, na beira do fogão e da máquina de costura.
E hoje, nesta celebração, Deus nos concede um sinal precioso: entre nós estão também lideranças mulheres, irmãs de outras tradições religiosas, pessoas de fé diversa, mas unidas na defesa da vida, da dignidade dos corpos negros, das mulheres, dos territórios. A presença delas aqui, lado a lado com nossa comunidade, é um recado claro do Espírito: “A diaconia de Cristo não cabe em fronteiras estreitas. Toda fé que se compromete com a vida, com a justiça e com o cuidado da criação é aliada na Caminhada Salvadora”.
Em Santinha, a Igreja está dizendo hoje: “Nós reconhecemos que o sol de justiça já brilhou nesta vida. Reconhecemos que, na trajetória desta mulher, Deus tem feito diaconia, antes do colarinho, da estola, antes da assinatura no livro”.
Nossas queridas IEAB e Diocese Anglicana do Recife não estão, portanto, “dando um cargo” a Santinha. Em verdade, estamos, com profunda alegria, confirmando um jeito de viver exemplar para todas e cada uma de nós aqui.
* *
Exemplar por nos apresentar a uma diaconia capaz de realizar justamente em meio aos abalos contemporâneos, fazendo-se boa notícia para um mundo em ruínas e para a criação ferida.
Alguém pode perguntar: que boa notícia é essa, num mundo em que não fica pedra sobre pedra?
O evangelho de Lucas nos lembra de um detalhe importante: Jesus não tem medo de falar de conflito, perseguição, processos, gente entregando gente, ódio à comunidade. Ele não promete uma comunidade blindada. Promete uma comunidade que testemunha em meio aos abalos.
É precisamente em meio aos abalos históricos que o ministério diaconal se torna necessário!
Quando o sistema econômico mói vidas, a diaconia se aproxima de quem perdeu o emprego, de quem está na fila do posto de saúde, de quem não sabe se vai ter comida até o fim do mês.
Quando a religião vira espetáculo, templo lindo, discurso vazio, a diaconia insiste em ser serviço, visita, escuta, presença.
Quando o mundo tenta convencer que é “cada um por si”, a diaconia responde: “ninguém solta a mão de ninguém”.
Mas os abalos não são somente sociopolíticos, são também socioambientais: o Velho Chico está adoecido, nossa Caatinga ferida, o clima em desordem e o Semiárido se desertifica em consequência da irresponsabilidade do agronegócio predador de água e terra, com seus agrotóxicos envenenando nossos corpos e nosso chão.
O Salmo 98 nos ajuda a perceber isso: se rios e montes podem “bater palmas” e “exultar” diante da justiça de Deus, é porque o juízo divino não é só sobre pessoas, mas sobre tudo aquilo que destrói a obra de Deus na criação.
Aqui em Petrolina, às margens do São Francisco, isso tem nome e endereço. Quando esta comunidade, ao lado das irmãs de outras fés, se posiciona em defesa do Velho Chico, quando denuncia projetos de morte, quando buscamos contribuir com o fortalecimento de iniciativas de cuidado com a casa comum através de nossas redes sociais, liturgias, voz pública, estamos praticando diaconia ecológica.
E a resposta positiva de Santinha a seu chamado diaconal nos provoca a todas diante das vocações que, cada uma, em seu íntimo, recebe do Infinito, independente de crença ou dúvida, e, principalmente, de vinculação religiosa formal: servir a Cristo nas pessoas e servir a Cristo na criação.
A ordenação de Santinha é, por isso, um anúncio muito concreto do evangelho: Deus não desistiu dos bairros populares de Petrolina. Deus não desistiu das trabalhadoras, das mulheres rendeiras, das famílias exaustas, das comunidades que insistem em se organizar. Deus não desistiu do Velho Chico, da caatinga, da casa comum. Deus continua levantando gente que entende que comunhão é também compromisso com a causa das oprimidas e com a integridade da criação. E não somente nos ritos dos altares.
* * *
“Quem não quer trabalhar, também não coma” (2Ts 3,10): precisamos olhar com cuidado para essa segunda leitura. Essa frase é muito usada, nos círculos fundamentalistas, como arma contra gente empobrecida, desempregada, adoecida, precarizada. Mas ela nos fala de comunidade inter-fé e de corresponsabilidade.
Seu autor, não está escrevendo para governos ou patrões. Escreve para uma comunidade cristã em crise, onde algumas pessoas: se acomodavam, esperando o fim próximo de tudo e, em consequência, viviam às custas do esforço de outras, tornando-se foco de desorganização interna. A mensagem para eles é: “Não desmobilizem a comunidade. Não fiquem só reclamando, nem só consumindo o que os outros constroem. Trabalhem juntos, ponham a mão na massa, não deixem recair sobre poucas o peso de todas”.
No contexto da ordenação de Santinha, essa palavra cai como luva: Não é justo que ela, diácona, faça sozinha o trabalho de visita, escuta, organização comunitária, diálogo inter-religioso, defesa socioambiental.
A diaconia é um modo comunitário de viver: cada pessoa com seu dom, seu tempo, seu carinho, sua coragem – inclusive na construção de pontes com outras tradições de fé que lutam pelo mesmo horizonte de justiça.
A boa notícia aqui é que Deus não exige heroísmos individuais, mas comunidades comprometidas: comunidades que não exploram o esforço das outras; comunidades que não se fecham em bolha confessional; comunidades que entendem que o cuidado com as empobrecidas, com a casa comum e com a liberdade religiosa são partes inseparáveis da mesma luta.
Diante da presença de nossas irmãs do Candomblé, podemos dizer com clareza:
toda vez que esta missão se levanta contra o racismo religioso, contra a perseguição às religiões de matriz africana, contra qualquer forma de intolerância, ela está buscando viver esse ensino: não se acomodem. Trabalhem juntos, em aliança, para que toda pessoa possa viver sua fé com dignidade.
* * * *
Quero terminar com algumas pistas concretas, que percebo na vida de Santinha, como diácona desde sempre, e que serve de convite para toda a comunidade e para nossas alianças inter-fé:
Santinha, querida, o ministério que a Igreja hoje te confia não é para mudar quem você é, mas para aprofundar o que você já vive.
Talvez possamos resumir em quatro verbos:
Escutar – continuar ouvindo a dor e a esperança do povo de Petrolina, das mulheres, trabalhadoras, juventudes, idosas, pessoas LGBTQIA+, enfim, de quem carrega no corpo, como Jesus, as marcas de várias violências. Escutar também as vozes de outras tradições de fé, especialmente das irmãs de terreiro, para que a diaconia seja ponte, não muro.
Interpretar – ajudar a Igreja a compreender “as necessidades, preocupações e esperanças do mundo” e trazê-las para o altar, para a oração, para a ação concreta. Isso inclui ler os sinais da crise socioambiental, da fome, do desemprego, da violência religiosa, e ajudar a comunidade a discernir o que o Espírito pede hoje.
Denunciar – não ter medo de confrontar injustiças, abusos de poder, violências. inclusive quando se escondem atrás de linguagem religiosa ou de discurso “desenvolvimentista” que destrói o rio e a terra.
Consolar e animar – ser sinal de ternura, acolhimento, esperança teimosa, sobretudo para quem o sistema já carimbou como “sem futuro”. Cuidar das feridas do povo e da criação, lembrando que o consolo de Deus não é anestesia, é força para se levantar e lutar.
Santinha, essa é para ti, mais diretamente. Não porque precise ouvir, mas porque, na condição de ministro encarregado, eu preciso dizer em voz alta e publicamente: a Igreja te ordena, mas não te possui. Como você sabe, sempre viveu e nos ensina diariamente: o Espírito é maior que qualquer instituição, e é dele que vem nossa liberdade.
Para nós outros, que fazemos a Missão São Francisco, deixo alguns convites:
Apoiemos Santinha. Com oração, com carinho, mas também com sinceridade, com crítica fraterna, com disposição de caminhar junto.
Não terceirizemos a diaconia. Quando a gente diz “a Santinha resolve”, “a diácona faz”, corremos o risco de transformar o ministério em prestação de serviço religiosa. E diaconia é identidade de todo o povo batizado: no cuidado mútuo, na luta por direitos, no compromisso com o meio ambiente, no diálogo respeitoso com quem crê diferente.
Assumamos, cada vez mais, a vocação socioambiental desta missão: defender Velho Chico, proteger a Caatinga, questionar modelos econômicos que destroem a vida, apoiar iniciativas de agroecologia, de economia solidária, de preservação da cultura local. Tudo isso não é “extra” da fé: é evangelho em forma de prática.
Fortalecer as alianças inter-religiosas. Tratar a presença das irmãs do Candomblé e de outras tradições não como “bonito detalhe”, mas como sinal de Deus. Construir espaços comuns de defesa da vida, de combate ao racismo religioso, de cuidado com os territórios, de promoção da paz com justiça.
&
Por fim, no meio de um mundo em que tantas coisas desabam, em que “não fica pedra sobre pedra”, Deus, em sua silenciosa presença, continua fazendo nascer sol de justiça.
Hoje, Santinha, a Igreja te coloca uma estola, te entrega uma Bíblia, te chama de “diácona”. Mas o que o céu celebra é outra coisa: que, numa cidade marcada por tantas contradições como Petrolina, uma mulher do povo, trabalhadora, rendeira, militante, em aliança com tantas outras mulheres de fé e de luta, é enviada em nome do Cristo Libertador para servir, interpretar as dores do mundo, denunciar a injustiça, cuidar das feridas do povo e da criação, construindo pontes de respeito entre diferentes tradições religiosas.
Que esse ministério renove também os nossos. Que, junto com você, a Missão São Francisco, nossas irmãs do Candomblé e todas as pessoas aqui presentes sigam cantando um cântico novo, até o dia em que a justiça de Deus seja, enfim, o chão de todas as gentes e de toda a criação. Amém.




