Os primeiros registros da presença anglicana na Bahia remontam a 1813, mas é 1815 que a tradição comunitária utiliza como referência para o estabelecimento de uma comunidade mais estruturada. Naquele período, a presença anglicana estava profundamente ligada à comunidade britânica, a partir de acordos comerciais entre as coroas britânica e portuguesa que permitiam aos britânicos professarem sua fé segundo sua própria tradição.

Ao longo dos séculos, essa comunidade passou por diferentes nomes e espaços. Começou como Capela ou Comunidade de São Jorge, posteriormente recebeu o nome de Christ Church e Cristo Redentor, até chegar à denominação Bom Pastor. O nome atual nasceu de uma imagem que se tornou símbolo da comunidade: um vitral produzido em 1860 em homenagem ao reverendo George Parker, responsável pela construção da primeira igreja anglicana organizada da Bahia.
A representação do Bom Pastor trazia Cristo diante de uma paisagem que incluía uma palmeira. Para a comunidade, aquele detalhe já revelava uma tentativa de aproximar a tradição cristã da realidade local. Décadas depois, a identidade baiana continuaria sendo incorporada à espiritualidade da paróquia.
Em 2026, quando a Diocese Anglicana do Recife celebra 50 anos de sua criação, a Paróquia Anglicana do Bom Pastor também celebra uma marca singular: é a única das três comunidades que deram origem à Diocese que permanece ativa até os dias atuais. Ao lado da Santíssima Trindade, em Recife, e da comunidade de Santa Maria, em Belém do Pará, o Bom Pastor participou da formação da Diocese na década de 1970.
Hoje, 211 anos depois de sua origem comunitária, a paróquia permanece como testemunho de uma Igreja que atravessou gerações sem abandonar a vocação de servir.
Uma comunidade que ajudou a construir a Diocese
A história do Bom Pastor está diretamente ligada à trajetória da própria Diocese Anglicana do Recife. Na década de 1970, quando a comunidade passou a ser administrada pela Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, ela tornou-se uma das três comunidades que deram origem à nova Diocese.
“Somos a comunidade mais antiga da Diocese Anglicana do Recife”, destaca o reverendo Bruno Almeida, responsável pela paróquia. Para ele, a permanência da comunidade ao longo dessas décadas representa mais do que uma questão administrativa. É a continuidade de uma história construída por diferentes gerações.
A trajetória, entretanto, não foi marcada apenas por celebrações. Ao longo do tempo, a comunidade precisou enfrentar mudanças, perdas e reconstruções. Uma das mais significativas ocorreu quando a relação histórica com a Sociedade de São Jorge, responsável legal pelo antigo imóvel utilizado pela paróquia, chegou a um período de ruptura.
Em 2010, após anos de negociações, a comunidade deixou o templo localizado no bairro da Pituba e adquiriu um novo espaço, onde permanece atualmente, no Largo do Papagaio, no bairro do Bonfim. A mudança representou o encerramento de um capítulo, mas também a possibilidade de reconstruir a vida comunitária em outro lugar.
A relação com a Sociedade de São Jorge, contudo, seria retomada anos mais tarde. Desde 2016, a comunidade também utiliza a Capela do Cemitério Britânico, na Barra, mantendo viva uma das dimensões mais antigas de sua missão: o atendimento pastoral à comunidade britânica e às pessoas de língua inglesa residentes na Bahia.
Assim, atualmente, o Bom Pastor mantém uma identidade formada por diferentes histórias e públicos. Há brasileiros e moradores da Bahia de diferentes origens, pessoas de diferentes classes sociais, etnias e gêneros, além da presença de membros ligados à tradição britânica.
Uma Igreja enraizada na cultura e comprometida com a vida
Se a história explica de onde veio o Bom Pastor, sua atuação revela aquilo que a comunidade deseja ser no presente. Ao longo das últimas décadas, a paróquia consolidou uma forte atuação no diálogo ecumênico e inter-religioso, na defesa de direitos e no acolhimento de pessoas historicamente marginalizadas.
Em 2006, a comunidade realizou o primeiro Simpósio de Religião, Cultura e Sexualidade, iniciativa que posteriormente ganhou novas edições e reuniu participantes de diferentes regiões do Brasil e de diversas tradições religiosas. O movimento ajudou a consolidar uma postura de acolhimento e defesa da dignidade da população LGBTQIA+.
O compromisso com a diversidade também aparece na relação da paróquia com as tradições religiosas de matriz africana. A comunidade participa de iniciativas de diálogo inter-religioso e de enfrentamento ao racismo e à intolerância religiosa, em articulação com organismos e instituições da sociedade civil.
Essa identidade também está presente na própria linguagem da comunidade. Uma pequena placa localizada na cozinha da paróquia resume, de maneira simbólica, a forma como o Bom Pastor compreende sua fé em território baiano: “O sangue de Cristo tem dendê.”
A frase traduz uma compreensão de que a fé cristã não precisa permanecer distante da cultura em que está inserida. Pelo contrário, pode encontrar nela caminhos para expressar o Evangelho, dialogar com diferentes tradições e reconhecer a riqueza presente na história e na identidade do povo.
Essa perspectiva se manifesta também na atuação junto ao movimento ecumênico. A comunidade participa de celebrações, formações e iniciativas conjuntas com outras igrejas e organizações religiosas de Salvador. Entre elas estão atividades ligadas ao Tempo da Criação, celebrações ecumênicas durante a Semana Santa, encontros de Advento e ações de diálogo com comunidades de outras tradições religiosas.
Em uma cidade marcada pela diversidade religiosa e cultural, o Bom Pastor procura fazer da própria caminhada uma ponte. Uma ponte entre tradições, entre pessoas e entre diferentes formas de compreender e viver a fé.
Uma comunidade que continua caminhando
A vida comunitária do Bom Pastor acontece atualmente por meio das celebrações eucarísticas semanais e de uma programação que procura combinar espiritualidade, formação e convivência. Estudos bíblicos, momentos de formação, celebrações específicas e atividades ecumênicas integram a rotina da paróquia.
A localização e as grandes distâncias de Salvador, entretanto, representam um dos desafios enfrentados pela comunidade. Há membros que vivem a dezenas de quilômetros do templo, o que torna a participação presencial uma dificuldade para parte da comunidade.
Ainda assim, a paróquia procura manter uma agenda que fortaleça seus vínculos e preserve sua identidade. Para isso, também aposta na parceria com outras comunidades de fé.
“Como aqui na Bahia a maioria das igrejas históricas e ecumênicas são pequenas, a gente se junta muitas vezes para diversos momentos”, explica o reverendo. A união de esforços permite que diferentes comunidades compartilhem experiências, recursos e testemunhos, fortalecendo uma presença cristã comprometida com o diálogo e a transformação social.

Entre os sonhos para os próximos anos está a criação de novas comunidades em Salvador, incluindo uma presença na região de Lauro de Freitas e outra em uma área mais central da capital baiana. A médio prazo, existe também o desejo de estabelecer uma comunidade em Aracaju.
Outro projeto é encontrar um espaço mais central para o templo atual, facilitando o acesso dos membros que vivem em diferentes regiões da cidade.
Mas os sonhos do Bom Pastor não se resumem à expansão física. A comunidade deseja continuar sendo uma presença anglicana reconhecível, acolhedora e profundamente comprometida com a realidade que a cerca.
“Eu ainda sonho em ter mais duas comunidades em Salvador”, afirma o reverendo Bruno Almeida, ao falar sobre o futuro. O desejo de crescimento aparece, assim, não apenas como uma busca por números, mas como uma possibilidade de ampliar a presença pastoral e missionária da Igreja.
Ao celebrar 211 anos de caminhada em Salvador e 50 anos como parte da Diocese Anglicana do Recife, o Bom Pastor olha para sua história sem deixar de olhar para o futuro. Sua trajetória revela uma comunidade que conheceu mudanças, enfrentou perdas, reconstruiu sua casa e permaneceu de pé.
Em sua longa caminhada, o Bom Pastor continua testemunhando que a fé também se constrói quando uma comunidade decide permanecer aberta ao outro. E, em Salvador, essa história segue sendo escrita por pessoas que encontram na Igreja não apenas um lugar para celebrar, mas uma casa para acolher, servir, dialogar e anunciar, com a própria vida, a esperança do Evangelho.
Terceira reportagem da série “Comunidades em Missão”, a história do Bom Pastor revela uma comunidade que atravessa dois séculos sem perder de vista sua vocação missionária. Entre o legado de 211 anos de presença anglicana e os sonhos para as próximas gerações, permanece viva a certeza de que a Igreja é chamada a estar onde a vida acontece, reconhecendo na diversidade do mundo um espaço para testemunhar a fé, cultivar o diálogo e construir, em comunidade, sinais do Reino de Deus.




