A história da Catedral Anglicana do Bom Samaritano é uma história de fé em movimento. Antes de ser templo, endereço ou referência institucional, ela nasceu do encontro entre pessoas que se reuniam para rezar, celebrar, escutar a Palavra e construir comunidade. Suas raízes remontam à década de 1980, quando grupos ligados aos Encontros de Jovens com Cristo, em Boa Viagem, começaram a reunir jovens, famílias e lideranças em torno de uma experiência marcada pela espiritualidade, pela convivência e pelo desejo de servir a Deus e ao próximo.
Com o crescimento daquela caminhada comunitária, surgiu a necessidade de consolidar uma presença episcopal anglicana no bairro, comprometida com a missão e com a vida da comunidade local. Assim, a antiga Igreja do Bom Samaritano foi inaugurada em 10 de fevereiro de 1990 e, ao longo dos anos, tornou-se um dos espaços mais simbólicos da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil em Pernambuco. Ali, diferentes gerações encontraram um lugar de oração, acolhimento, formação, celebração dos sacramentos e participação ativa na vida da Diocese Anglicana do Recife.
Entre os anos de 2005 e 2015, quando a Diocese atravessou seu momento de crise mais aguda, com a saída do antigo Bispo e de inúmeras lideranças locais da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, o templo do Bom Samaritano ficou fora da posse da Diocese por um longo período, chegando a ser fechado por alguns anos. Durante esse período, no qual a Diocese permaneceu com poucas lideranças e praticamente sem espaços próprios para se reunir, o Seminário Anglicano de Estudos Teológicos (SAET) tornou-se o principal lugar de encontro da comunidade. Ali continuaram acontecendo celebrações, formação, planejamento e reconstrução da vida diocesana. Foi dessa experiência de perseverança que nasceu, anos depois, a comunidade responsável pela reabertura da Catedral. Em 29 de maio de 2016, já sob a liderança do Bispo João Câncio Peixoto e do Rev. Gustavo Gilson Oliveira, a Paróquia do Bom Samaritano foi oficialmente reaberta e, no ano seguinte, em 18 de junho de 2016, foi instituída como a nova Catedral da Diocese Anglicana do Recife.

Em 2026, enquanto a Diocese Anglicana do Recife celebra seus 50 anos de criação, o Seminário Anglicano de Estudos Teológicos completa 30 anos e a Catedral do Bom Samaritano celebra 10 anos de sua reabertura, a comunidade também recorda seus 36 anos de caminhada e nove anos como Sé Diocesana, reafirmando uma trajetória construída por muitas mãos, muitos sonhos e muita fé. Mais do que recordar datas, a comunidade celebra a fidelidade de Deus ao longo do tempo, agradece pelas pessoas que ajudaram a sustentar essa história e renova a esperança diante do novo templo que começa a nascer na Rua São Salvador, no bairro do Espinheiro, Zona Norte do Recife.
Um templo que marcou a memória da cidade
O antigo templo, localizado em Boa Viagem, marcou a paisagem arquitetônica do Recife. Projetado pelo arquiteto e reverendo norte-americano Marston Price, com execução do escritório Arquitetura 4, formado por mulheres, o edifício se tornou uma importante referência da arquitetura sacra moderna na capital pernambucana.

Seu formato em losango, os elementos em cerâmica armada, os cobogós com símbolos cristãos e os painéis de azulejos ajudaram a construir uma identidade visual, litúrgica e espiritual singular. Por muitos anos, aquele espaço tornou-se um importante ponto de encontro não somente da comunidade anglicana, mas também do movimento ecumênico e da sociedade civil, consolidando-se como um símbolo da presença da Diocese na Zona Sul do Recife. Para a comunidade, a antiga casa era também um espaço de memória afetiva, onde diferentes gerações viveram momentos de oração, serviço, reencontro e fortalecimento da fé.
Com a ausência de manutenção durante os anos de fechamento, entretanto, vários problemas estruturais comprometeram a segurança do edifício e inviabilizaram a permanência da comunidade no local. Em maio de 2024, em espírito de gratidão pela história partilhada naquele espaço, a Diocese realizou a cerimônia de desconsagração do templo. A demolição, ocorrida meses depois, encerrou um capítulo importante da história do Bom Samaritano, mas não interrompeu a vida da comunidade.
Para o reverendo Gustavo Gilson, Deão da Catedral Anglicana do Bom Samaritano, o momento atual revela uma dimensão profunda da fé cristã e da caminhada comunitária.
“Estamos entre a despedida de nossa antiga casa e a preparação de nossa futura Catedral. Este caminho tem nos lembrado algo precioso: a Igreja não é feita apenas de paredes, mas de pessoas reunidas em torno de Cristo, da Palavra, da Mesa e da missão”, afirma.
Uma comunidade em travessia
Atualmente, a comunidade realiza suas celebrações provisoriamente na Capela da UniFafire, na Avenida Conde da Boa Vista, enquanto acompanha o processo de construção da futura Catedral e do Escritório Diocesano, na Rua São Salvador, no bairro do Espinheiro, Zona Norte do Recife.

O novo templo nasce como parte desse tempo de renovação. Mais do que uma nova estrutura física, a futura Catedral carrega a memória dos 36 anos do Bom Samaritano e a esperança de seguir sendo um espaço de celebração, formação, convivência comunitária, diálogo com a cidade e fortalecimento da missão episcopal anglicana no Nordeste. Ela representa também a continuidade de uma missão que, ao longo das últimas décadas, procurou unir espiritualidade, formação, acolhimento, diálogo ecumênico e compromisso com a justiça social.
“Somos e continuaremos a ser um povo peregrino, enraizado no Evangelho, aberto ao novo e chamado a caminhar na fé, na esperança e no amor.”, reflete Gustavo Oliveira.
Ao recordar essa trajetória, a comunidade também reconhece o papel de todas as pessoas que ajudaram a construir sua história. Fiéis, lideranças, pessoas clérigas e leigas contribuíram para consolidar uma comunidade que busca testemunhar o Evangelho por meio de uma espiritualidade profundamente litúrgica, de uma reflexão teológica honesta e comprometida com a realidade, do acolhimento e da defesa da dignidade plena de todas as pessoas – especialmente aquelas historicamente mais vulnerabilizadas, como as mulheres, pessoas negras e população LGBTQIA+, – do diálogo ecumênico e interreligioso e do compromisso permanente com a justiça, a paz e o cuidado da vida.
“Deus nos sustentou em momentos de alegria e de desafio, ajudando-nos a crescer como comunidade de fé, acolhimento, serviço e esperança”, diz o Deão.
Primeira reportagem da série “Comunidades em Missão”, esta matéria apresenta uma comunidade que celebra sua história sem permanecer presa ao passado. Ao recordar suas raízes, a Catedral do Bom Samaritano reafirma sua vocação de caminhar com esperança, colocando sua fé a serviço da cidade e da construção de uma sociedade mais justa, acolhedora e solidária. Entre a memória da antiga casa e a construção de um novo templo, permanece viva a convicção de que a Igreja continua existindo onde pessoas se reúnem em torno de Cristo, da Palavra, da Mesa e da missão.




