O Recife sediou, entre os dias 24 e 31 de outubro, uma etapa presencial da “Emerging Leaders Academy” (ELA), programa internacional de formação que reuniu jovens de diferentes partes da Comunhão Anglicana para uma jornada de aprendizagem, reflexão teológica e intercâmbio cultural. Com duração de um ano, a iniciativa busca desenvolver habilidades de liderança, fortalecer vínculos entre comunidades e ampliar a compreensão sobre os desafios contemporâneos da missão da Igreja.
Organizada em parceria pela “United Society Partners in the Gospel” (USPG), pela “Episcopal Divinity School” (EDS) e pela “Anglican Communion Youth Network” (ACYN), a formação combina encontros presenciais com seis meses de atividades on-line em grupo e seis sessões mensais de mentoria individual. Com o encerramento da etapa realizada no Brasil, os participantes dão continuidade ao percurso formativo por meio das atividades virtuais e do acompanhamento individual.
A ELA busca fortalecer a atuação da Comunhão Anglicana como uma rede internacional de Igrejas, na qual diferentes experiências culturais, sociais e teológicas podem contribuir para a construção coletiva da missão.
Formação e colaboração em uma Igreja global
A iniciativa trabalha três dimensões principais: desenvolvimento de lideranças, engajamento intercultural e aprofundamento teológico. A programação oferece ferramentas para a atuação comunitária, promove o diálogo entre diferentes realidades e estimula a reflexão sobre o papel da Igreja diante das transformações sociais e dos desafios contemporâneos.
Para o reverendo Rodrigo Espiúca, sacerdote da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, advogado, professor e da Diocese Anglicana de Brasília, a formação representa uma oportunidade de fortalecer a colaboração entre as diferentes partes da Comunhão Anglicana e reconhecer a diversidade de experiências presentes na Igreja global.
“O ‘Emerging Leaders Academy’ é um programa de formação que busca desenvolver habilidades de liderança, promover o diálogo intercultural e aprofundar a reflexão teológica. Reunir participantes de diferentes partes da Comunhão Anglicana permite que conheçam outras realidades e aprendam uns com os outros. A missão se fortalece quando as experiências e capacidades de diferentes comunidades podem ser compartilhadas, reconhecidas e colocadas em diálogo”, afirma.
Rodrigo atua como coordenador do Departamento de “Advocacy”, Direitos Humanos, Ambientais e Territoriais da Diocese Anglicana de Brasília e como Facilitador para o Anglicanismo Global junto à “Episcopal Divinity School”. Também colabora como facilitador do programa Floresta da Comunhão, da Aliança Anglicana.
Diversidade e participação na missão da Igreja
Um dos desafios abordados pela formação é ampliar as condições para que novas lideranças participem efetivamente da vida institucional e comunitária da Igreja. Isso envolve não apenas oferecer oportunidades de capacitação, mas também criar espaços de escuta, responsabilidade e participação nos processos de decisão.
Segundo Rodrigo, a diversidade da Comunhão Anglicana precisa estar presente não apenas na composição dos grupos, mas também nas discussões e nas práticas institucionais.
“Um desafio importante é assegurar que a diversidade da Comunhão não fique apenas representada na composição do grupo, mas também apareça nas conversas, nas práticas de liderança e nas decisões. Isso exige escuta, respeito entre diferentes contextos e atenção às barreiras que limitam a participação”, destaca.
O intercâmbio internacional também permite que os participantes compartilhem experiências e identifiquem desafios comuns, mesmo diante de diferentes contextos sociais, culturais e eclesiásticos. A proposta é construir relações de colaboração recíproca, nas quais todas as comunidades tenham condições de contribuir para as reflexões e os caminhos da Igreja.
“Não se trata de um contexto ensinar aos demais, mas de criar relações em que todos possam oferecer, receber e aprender. Assim, a Comunhão pode se tornar mais policêntrica, com espaço para que diferentes Igrejas influenciem sua reflexão e sua ação”, explica Rodrigo.
A experiência brasileira no intercâmbio internacional
A edição de 2026 também contou com a participação do pernambucano Luiz Eduardo Vasconcelos da Silva, da Diocese Anglicana do Recife, paroquiano da Catedral Anglicana do Bom Samaritano, no Recife. Secretário da Junta Paroquial, integrante da juventude e colaborador da Pastoral da Diversidade, ele participou da formação ao lado de jovens de diferentes províncias anglicanas.
Para Luiz Eduardo, um dos principais aprendizados foi conhecer outras formas de viver a espiritualidade e organizar o trabalho pastoral. A convivência com participantes de diferentes países também permitiu reconhecer desafios sociais que atravessam comunidades de realidades distintas.
“Representa uma oportunidade única de poder conhecer outros jovens da Comunhão Anglicana e entender um pouco sobre suas culturas, línguas, modos de adorar a Deus e formas de organizar o trabalho na Igreja”, relata.
Entre as experiências que mais o marcaram esteve o testemunho de um participante que compartilhou os impactos da guerra civil em seu país e as condições precárias enfrentadas por agricultores ligados à sua comunidade. O relato provocou reflexões sobre o compromisso social das instituições religiosas e a necessidade de enfrentar estruturas que produzem exploração e pobreza.
“Com isso, pude concluir que a Igreja ainda precisa se envolver profundamente nas realidades sociais das nossas comunidades e buscar a transformação dessas estruturas injustas, que causam exploração e pobreza”, destaca.
A programação também incluiu oficinas sobre teologia, comunicação, modelos de liderança, comunicação não violenta e escuta ativa. Segundo Luiz Eduardo, os conteúdos contribuíram para ampliar sua compreensão bíblica e desenvolver competências que poderão ser aplicadas à rotina paroquial, especialmente na divulgação de iniciativas e no fortalecimento da participação comunitária.
“Pude aperfeiçoar competências que serão importantes para a vida paroquial”, afirma.
Juventude, participação e inclusão
A experiência também reforçou a importância de ampliar os espaços de participação das novas gerações na Igreja. Ao observar as diferentes realidades dos participantes, Luiz Eduardo identificou desafios relacionados às condições econômicas e sociais, ao preconceito geracional e às discriminações motivadas por gênero e orientação sexual.
“Apesar das nossas diferenças, compartilhamos muitas coisas em comum, como um espírito insaciável de serviço às nossas comunidades”, avalia.
Para ele, a Igreja precisa construir ambientes nos quais os jovens possam expressar suas experiências, desenvolver seus dons e participar efetivamente da vida comunitária.
“Cumpre à Igreja Anglicana, portanto, em nossas realidades locais, propiciar um ambiente no qual todos os jovens se sintam bem-vindos, acolhidos, escutados, vistos e incluídos”, defende.
A reflexão dialoga com sua própria atuação na Catedral Anglicana do Bom Samaritano, onde participa da vida paroquial e colabora com a Pastoral da Diversidade. Para Luiz Eduardo, a inclusão e a participação não devem ser tratadas como questões secundárias, mas como dimensões importantes da construção comunitária.
Da formação internacional às comunidades locais
A estrutura da “Emerging Leaders Academy” procura conectar a experiência internacional à realidade cotidiana das comunidades anglicanas. A etapa presencial proporcionou momentos de convivência e troca de conhecimentos, enquanto as atividades on-line e a mentoria individual darão continuidade ao processo de aprendizagem e desenvolvimento dos participantes.
Para Rodrigo Espiúca, é fundamental que os conhecimentos adquiridos durante a formação ultrapassem o período do programa e contribuam para a realidade das dioceses e comunidades locais.
“Para a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, é importante que o participante possa compartilhar o que aprendeu com as dioceses e comunidades e que encontre apoio para levar adiante suas iniciativas. Valorizo uma formação que conecte a aprendizagem internacional à realidade concreta das paróquias e dioceses”, afirma.
Luiz Eduardo também espera aplicar os aprendizados em sua comunidade, especialmente nas iniciativas de comunicação, acolhimento e organização paroquial. A expectativa é que a experiência contribua para fortalecer a participação dos membros e ampliar as possibilidades de atuação coletiva.
Ao reunir jovens de diferentes partes do mundo, a “Emerging Leaders Academy” evidencia que a construção do futuro da Igreja passa pelo diálogo entre culturas, pelo aprofundamento da fé e pela participação efetiva das novas gerações. A formação segue agora em sua etapa de acompanhamento e aprendizagem on-line, com a expectativa de transformar as experiências compartilhadas no Recife em iniciativas concretas nas comunidades anglicanas.










